
Enquanto os partidos políticos andam pelo país a distribuir promessas como quem distribui rebuçados em festa de Nhô São João, o Banco de Cabo Verde deu a conhecer , hoje, um documento de 63 páginas chamado de Relatório da Politica Monetária que na conjuntura eleitoral veio fazer o papel do parente chato da família: aquele que interrompe a festa para perguntar quem vai pagar a conta.
Por : Eduino Santos
O Relatório de Política Monetária de Abril de 2026 diz, com linguagem técnica e sem música de campanha, uma coisa simples: a economia cabo-verdiana continua a crescer, sim senhor, mas já começou a perder fôlego.
Traduzindo para crioulo político: o país não está exatamente no momento ideal para prometer universidade gratuita, transportes quase de graça, aumentos salariais para toda a função pública, pensões mais gordas e um Estado social tamanho XXL.
O BCV fala em:
inflação a subir,
turismo a desacelerar,
investimento privado moderado,
crédito mais difícil,
riscos internacionais,
petróleo instável,
guerra no Médio Oriente,
e pressão sobre preços.
Mas na campanha ninguém parece muito interessado nesses detalhes aborrecidos da matemática.
Aliás, a campanha eleitoral em Cabo Verde entrou naquela fase quase espiritual em que o dinheiro aparentemente deixou de existir como problema económico e passou a ser apenas um estado de fé. Isto defendido por economista.
Promete-se tudo.
Uns prometem baixar transportes em 85%, mesmo com o próprio relatório do BCV a avisar que os custos internacionais de frete aumentaram 21,4% e os seguros quase 70%.
Outros prometem mais salários, mais subsídios, mais prestações sociais, mais Estado, mais apoios, mais tudo — como se o Orçamento Geral do Estado fosse produzido em fábrica de grogue clandestina em Santo Antão: é só aumentar água e …açúcar a gosto
E no meio disto tudo, os especialistas económicos nacionais continuam num silêncio quase monástico. Talvez estejam ocupados a explicar como o Papa Francisco, que Deus o tenha, entra no défice público. Ou então a fazer contas sobre quantas bananas equivalem a um ponto percentual do PIB.
O problema é que o BCV não escreveu um relatório eleitoral. Escreveu um aviso.
Porque no fundo o documento diz algo simples e brutal:
Cabo Verde pode até sonhar grande, mas a carteira continua pequena.
E talvez por isso ninguém queira discutir o relatório em campanha. Porque entre o comício e a contabilidade, a política cabo-verdiana quase sempre prefere a música.