
Durante décadas, a “Frigideira” foi quase uma palavra sussurrada dentro da história do Campo de Concentração do Tarrafal.
Agora surgem vestígios materiais da cela mais temida do chamado “Campo da Morte Lenta”, encontrados durante escavações arqueológicas em curso no antigo campo prisional do Tarrafal, atual Museu da Resistência. (noticiasaominuto.com)
Segundo o Governo de Cabo Verde, os arqueólogos identificaram estruturas associadas à antiga “Frigideira”, espaço de punição extrema criado após a tentativa de fuga coletiva de 2 de Agosto de 1937.
Era uma cela construída precisamente para destruir lentamente o corpo e a mente dos presos:
isolamento
calor sufocante
ausência de ventilação
privação física e psicológica
Uma arquitetura pensada para o sofrimento.
O Tarrafal continua vivo na memória política atlântica
O Campo do Tarrafal foi criado pelo regime fascista português em 1936, durante a ditadura de António de Oliveira Salazar, para encarcerar opositores políticos portugueses.
Mais tarde, na segunda fase do campo, passou também a receber nacionalistas africanos de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde ligados às lutas de libertação. (Almedina)
Ao todo, mais de 500 presos passaram pelo Tarrafal.
Muitos morreram ali.
Outros morreram depois, carregando doenças e traumas do campo.
O Tarrafal tornou-se símbolo internacional da repressão colonial portuguesa.
Mas a história do Tarrafal não termina em 1974
E talvez seja precisamente aqui que a memória começa a ficar mais desconfortável.
Porque durante muitos anos criou-se quase uma narrativa simplificada do Tarrafal:
fascismo português de um lado
resistentes anticoloniais do outro.
Mas a história real é mais complexa.
Investigações recentes e livros publicados nos últimos anos mostram que o Tarrafal continuou a ser utilizado politicamente mesmo depois do 25 de Abril português e já em pleno processo de independência de Cabo Verde.
O livro que reabriu o silêncio
Em 2025, a jornalista e investigadora Sandra Inês Cruz publicou o livro Tarrafal, 1975 – O Campo do Silêncio, obra que trouxe novamente para o debate público um tema durante muito tempo praticamente ausente da memória oficial cabo-verdiana. (Expresso das Ilhas)
Segundo a investigação da autora, dezenas de cabo-verdianos foram presos no Tarrafal já depois do 25 de Abril de 1974.
Muitos desses homens:
não concordavam com o projecto político do partido único opunham-se à união Cabo Verde–Guiné-Bissau defendiam referendo sobre a independência ou eram considerados próximos da administração portuguesa. (Inforpress).
A autora refere que cerca de 58 homens, quase todos cabo-verdianos, foram encarcerados no Tarrafal em Dezembro de 1974 e libertados apenas após a independência de Cabo Verde em Julho de 1975. (Inforpress)
Ou seja:
o campo que simbolizava a repressão colonial portuguesa continuou a funcionar já no contexto da transição política cabo-verdiana.
E isso continua a provocar desconforto histórico e político.
A disputa pela memória
Talvez por isso o Tarrafal continue a ser um dos lugares mais sensíveis da memória política cabo-verdiana.
Porque o campo permite duas leituras simultaneamente verdadeiras:
foi símbolo brutal da repressão fascista colonial portuguesa mas também testemunhou episódios de repressão política ligados ao período da independência e do partido único.
E durante muito tempo essa segunda parte permaneceu quase ausente da narrativa pública oficial.
UNESCO e o dever de memória
As escavações arqueológicas agora em curso fazem parte do processo de candidatura do antigo Campo do Tarrafal a Património Mundial da UNESCO.
O objetivo é preservar não apenas as estruturas físicas, mas também a memória histórica do local.
Os trabalhos são conduzidos pelo Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, com participação de investigadores portugueses especializados em arqueologia histórica. (noticiasaominuto.com)
Mas talvez o verdadeiro desafio não seja apenas conservar pedras, celas ou paredes.
Talvez seja aceitar toda a complexidade da memória do Tarrafal — incluindo as partes que continuam politicamente desconfortáveis.
O campo da morte lenta… e da memória lenta
A descoberta dos vestígios da “Frigideira” devolve ao país uma pergunta antiga: como lembrar o Tarrafal sem transformar a história em versão simplificada?
Porque o Tarrafal não pertence apenas à memória portuguesa, angolana, guineense ou cabo-verdiana.
Pertence também à história universal dos regimes que acreditaram que o isolamento, o medo e o sofrimento podiam calar ideias.
E talvez por isso o antigo campo continue tão inquietante: mesmo abandonadas, certas celas continuam a falar.
NN