Houve um tempo em que os partidos guardavam as sondagens a “sete chaves” e não divulgavam. Se calhar porque eram sérias e com rigor cientifico. Agora existem as “sondagens” para todos os gostos . E, como quase tudo na política cabo-verdiana moderna, elas aparecem primeiro no Facebook, depois no WhatsApp e só no fim — se houver tempo e paciência — alguém pergunta de onde vieram.
Por: Eduino Santos

As redes sociais cabo-verdianas estão hoje inundadas de gráficos coloridos, percentagens milagrosas e estudos de opinião que brotam com a mesma facilidade com que aparecem perfis chamados “Observador Independente”, “Voz do Povo”, “Análise Política CV” ou “Patriotas da Mudança”. Uns juram que o PAICV já está com uma mão no poder. Outros garantem que o MpD vai ganhar “com maioria reforçada”. E há ainda os mais criativos, capazes de fabricar um empate técnico entre partidos que nem conseguem encher uma sala de conferência.
O curioso é que muitas dessas publicações aparecem com nomes de empresas supostamente especializadas. Algumas até usam logótipos verdadeiros, gráficos sofisticados e linguagem técnica digna de conferência universitária. Falta apenas um pequeno detalhe: quase ninguém sabe se a tal sondagem existe de facto.
E é aqui que entra a lei cabo-verdiana.
O regime jurídico das sondagens eleitorais estabelece que a divulgação pública de estudos de opinião obedece a regras claras. Não basta fazer um gráfico no Canva, meter uma bandeira ao fundo e escrever “fonte segura”. A legislação exige identificação da empresa responsável, metodologia, tamanho da amostra, datas do trabalho de campo e comunicação prévia às autoridades competentes.
Além disso, durante determinados períodos eleitorais, a própria divulgação de sondagens pode ser proibida.
O problema é que a lei foi pensada num tempo em que o principal campo de batalha eleitoral eram rádios, televisões e jornais. O legislador provavelmente nunca imaginou um militante exaltado, às duas da manhã, sentado num sofá, a publicar no Facebook uma “tracking poll” feita entre três primos, dois taxistas e um grupo de WhatsApp.
A Posição da CNE : por enquanto sinais
Mas a Comissão Nacional de Eleições já deu sinais claros de que entende as redes sociais como espaço sujeito às regras eleitorais. E faz sentido. Hoje uma página de ditos “ativistas” consegue alcançar mais pessoas do que muitos órgãos de comunicação tradicionais. Na prática, criou-se uma espécie de guerra psicológica digital.
Os militantes do PAICV partilham apenas as sondagens favoráveis ao PAICV. Os do MpD fazem exatamente o mesmo do outro lado. E o cidadão comum, perdido entre emojis, bandeiras e comentários furiosos, passa a viver numa democracia paralela onde cada bolha política já decidiu antecipadamente o vencedor.
É a política transformada em campeonato de screenshots.
E ninguém quer saber muito da ficha técnica. Porque, convenhamos, a metodologia nunca ganhou discussão no Facebook. O que ganha é a percentagem que confirma aquilo em que cada um já queria acreditar.
Há ainda um fenómeno particularmente cabo-verdiano: a multiplicação súbita de “especialistas eleitorais”. Pessoas que durante anos nunca demonstraram interesse por estatística descobrem, em plena campanha, uma paixão ardente por amostras representativas, projeções e tendências. Alguns analisam gráficos com a mesma convicção com que comentam jogos do Benfica.
No fundo, as redes sociais democratizaram tudo — inclusive a fabricação de realidades eleitorais.
E talvez seja esse o maior desafio das próximas eleições: distinguir uma sondagem séria de um simples exercício de militância digital vestido com roupa de ciência.