Há outro pormenor desconfortável que ninguém gosta de admitir em voz alta: Cabo Verde não governa sozinho. Qualquer governo que queira fazer mudanças a sério terá sempre de negociar com credores, instituições financeiras e parceiros de desenvolvimento. Mas “prudência macroeconómica” não é uma frase que encha um comício em Achada Santo António.

Por: Eduino Santos
No meio de toda esta confusão de caravanas, bandeiras, músicas de campanha e vídeos emotivos a circular no Facebook, o Governo publicou, discretamente , sem pompa , nem circunstância , as Diretrizes do Orçamento do Estado para 2027.
Fê-lo assim, sem alarido, a apenas seis dias das eleições. E, curiosamente, parece que poucos deram por isso e assunto não subiu ao palco.
Talvez o país político esteja demasiado ocupado a discutir a divisão das bananas, a economia segundo o Papa Francisco, o “Estado Amparo” ou se Jesus Cristo, hoje em dia, seria a favor do défice público, desde que fosse para o bem social.
Enquanto os partidos prometem mundos e fundos — salários mais altos, pensões reforçadas, transportes quase de graça, subsídios para tudo e mais alguma coisa, acabar com as barrancas e um Casa para todos 2.0 e impostos mais baixos —, o Governo veio, de mansinho, lembrar-nos de uma coisa muito chata chamada “limites orçamentais”.
O documento fala vezes sem conta em “prudência fiscal”, “controlo da dívida”, “sustentabilidade” e “contenção da despesa”. Traduzindo para o barulho da campanha: é um grande balde de água fria no entusiasmo geral.
E é aqui que surge a pergunta que devia estar no centro de todos os debates: se o próprio Governo já está a planear um Orçamento para 2027 cheio de regras e apertos, isso não quer dizer que a maior parte destas promessas eleitorais, na melhor das hipóteses, só terá espaço para ser cumprida em 2028?
Silêncio total. Os nossos especialistas em economia parecem entretidos com debates mais… etéreos. Uns tentam explicar como a multiplicação dos pães e dos peixes pode servir de inspiração para a política fiscal, enquanto outros quebram a cabeça para perceber como é que as ideias do Papa Francisco se encaixam nas contas do Estado sem fazer o défice explodir.
O Orçamento de 2027 já começou a ser desenhado agora, o que significa que as metas já estão a ser definidas
É que muita gente ainda acha que um governo toma posse e, no dia seguinte, começa a distribuir benesses como se estivesse a atirar t-shirts de um palco. Mas a máquina do Estado não funciona ao ritmo de um carro de som. O Orçamento de 2027 já começou a ser desenhado agora, o que significa que as metas já estão a ser definidas, os ministérios já estão a receber orientações e os nossos parceiros internacionais já estão de olho nas projeções.
Ou seja, quem chegar ao poder em 2026 não vai encontrar uma folha em branco. Vai encontrar um ficheiro Excel já meio preenchido. E toda a gente sabe que o Excel é muito menos dado a emoções do que um comício.
Ao publicar estas diretrizes agora, o Governo talvez tenha feito a jogada mais subtil da campanha. É uma mensagem silenciosa, mas clara: “prometer é fácil, governar com uma dívida acima dos 100% do PIB é outra conversa”. Sem entrar na guerra dos slogans, põe a realidade das contas públicas em cima da mesa, precisamente quando a oposição promete mais Estado social, mais despesa, mais apoios e mais benefícios.
Tudo isto num país que importa quase tudo o que consome, vive do turismo, das remessas e de financiamento externo, e continua completamente vulnerável a qualquer crise lá fora.
Cabo Verde não governa sozinho
Há outro pormenor desconfortável que ninguém gosta de admitir em voz alta: Cabo Verde não governa sozinho. Qualquer governo que queira fazer mudanças a sério terá sempre de negociar com credores, instituições financeiras e parceiros de desenvolvimento. Mas “prudência macroeconómica” não é uma frase que encha um comício em Achada Santo António.
Por isso, a verdade mais dura escondida no meio desta campanha talvez seja esta: muitas das promessas que ouvimos são, na prática, promessas para 2028. Mesmo que haja uma mudança de governo, o Orçamento de 2027 será, muito provavelmente, um orçamento de transição. As grandes reformas, se vierem, só terão dinheiro para acontecer mais tarde.
No fundo, a campanha vende sonhos e o orçamento lembra-nos dos limites. Os partidos prometem rasgo e as diretrizes pedem calma. E, no meio disto tudo, talvez o que falte seja ouvir economistas a falar de números, sem terem de recorrer a metáforas bíblicas ou filosofia moral para se fazerem entender. Porque, no final do dia, por mais inspiradora que seja a economia do Papa Francisco, o défice continua a fazer contas bem mais terrenas.