Mas, aos poucos, a conversa técnica vai dando lugar a algo que soa mais a uma declaração de fé política. O momento mais claro é quando o autor larga Keynes e Hayek para ir buscar reforços em Jesus Cristo e no Papa Francisco. E é aqui quando entra a fé que o leitor percebe: a defesa económica, por si só, já não chegava.
Precisou de um empurrãozinho espiritual com o embalo de um papa e de Jesus Cristo , que convenhamos embala qualquer um.

Por : Eduino Santos
O texto de José Luís Neves sobre a “Economia de Francisco”, publicado no “ Santiago Magazine” é inteligente, bem escrito e, politicamente, uma mão na roda para o PAICV.
Mas o problema que surge é outro: quanto mais Neves se esforça para defender a viabilidade do tal “Estado Amparo”, mais expõe a fragilidade gritante das contas por trás da ideia. E talvez seja essa a grande ironia do artigo.
O artigo começa como análise económica, acaba quase em sermão. Vamos separar a economia da fé .
No início, o artigo veste um fato sério, de economista: espaço fiscal, estabilidade macroeconómica, dívida pública, sustentabilidade
Tudo muito técnico. Tudo com ar académico.
Mas, aos poucos, a conversa técnica vai dando lugar a algo que soa mais a uma declaração de fé política. O momento mais claro é quando o autor larga Keynes e Hayek para ir buscar reforços em Jesus Cristo e no Papa Francisco. E é aqui que entre a fá e nessa altura, o leitor percebe: a defesa económica, por si só, já não chegava. Precisou de um empurrãozinho espiritual com o embalo de um papa e de Jesus Cristo , convenhamos não é para qualquer um.
O próprio autor desmonta, nas entrelinhas, as promessas de Francisco Carvalho
O mais curioso é que José Luís Neves passa metade do tempo a explicar por que é que Cabo Verde NÃO tem estofo para aguentar um Estado Social muito maior. Ele mesmo admite que temos: uma economia frágil, uma base produtiva muito limitada dependência total do exterior, restrições orçamentais severas, riscos globais e climáticos à porta.
Ou seja, ele descreve o cenário perfeito, que segundo os economistas, para onde um aumento gigante e permanente da despesa pública costuma dar muito errado. Mas depois de toda esta análise fria, a conclusão é um simples “vamos ter fé”. E o papa Francisco e Jesus Cristo são de novo chamados .
É como se um médico explicasse todos os riscos mortais de uma cirurgia experimental e, no fim, dissesse: “olhe, mas com um bocadinho de sorte, talvez corra bem”.
E os números, onde andam?
O texto está cheio de palavras bonitas: redistribuição, combate ao desperdício, justiça social. São ideias com as quais toda a gente concorda. O que o texto não faz é responder à pergunta que realmente interessa: quanto é que isto custa?
As propostas de Francisco Carvalho cheiram a um aumento brutal da despesa com salários, subsídios e serviços públicos. Mas o artigo nunca nos dá: projeções concretas, fontes de financiamento claras, o impacto real no Orçamento Geral do Estado.
Ficamos a pairar num campo filosófico, entre a “ousadia” e a “esperança”.
O velho truque do “sonhar grande”
Há uma frase no texto que diz tudo: “o papel do político é sonhar, acreditar e ousar”.
É uma frase inspiradora, sem dúvida. Mas é perigosamente cómoda. Porque governar não é só sonhar. Governar é também pagar salários no fim do mês, controlar o défice, negociar a dívida e manter a confiança de quem nos empresta dinheiro. E Cabo Verde não tem propriamente margem de manobra para experiências românticas que corram mal.
O medo dos parceiros internacionais (dito em voz baixa)
Outro pormenor interessante: o autor fala várias vezes no “desconforto” que estas ideias podem causar nos nossos parceiros internacionais. Traduzindo por miúdos: há um receio real de que estas políticas assustem quem financia o país. E isto é importante, porque Cabo Verde vive à base de ajuda externa, de financiamentos e da confiança de instituições como o FMI e o Banco Mundial. Qualquer sinal de descontrolo nas contas públicas pode fechar a torneira. O autor do texto sabe disto. Apenas o diz em letra pequena.
A realidade dos números só complica as coisas
Basta olhar para alguns dados para perceber o tamanho do desafio: a nossa dívida pública continua acima dos 100% do PIB, importamos mais de 80% do que comemos, a economia depende do turismo e das remessas. Isto significa que Cabo Verde, simplesmente, ainda não gera riqueza suficiente para bancar um Estado Social ao estilo europeu. Isto não é uma questão de ideologia, é aritmética pura.
Talvez a parte mais inteligente do artigo seja esta: pegar numa fragilidade económica e vendê-la como um ato de coragem política.
Com esta lógica, quem pede contas e prudência é logo rotulado de “pessimista” ou “sem visão”. Quem avisa para os perigos é “pouco ousado”. Politicamente, é uma jogada de mestre. Economicamente… bem, isso depende dos números que continuam escondidos.
No fim, o alvo mais fácil é Ulisses
Curiosamente, a parte mais dura e concreta do texto não é sobre economia, é sobre política. José Luís Neves ataca diretamente Ulisses Correia e Silva por não cumprir promessas, por governar de crise em crise e por querer um terceiro mandato depois de tanto ter criticado os ciclos longos de poder. É aqui que o artigo ganha mais força, porque toca num sentimento real de desgaste com a governação atual.
Em resumo, se tivéssemos de resumir o texto numa frase, seria esta: é um artigo com uma análise economicamente cautelosa, mas uma conclusão politicamente otimista. O autor aponta todos os buracos no caminho, mas no fim pede-nos para acelerar e acreditar que vamos conseguir saltar por cima deles. Ou seja: o que se pede é um ato de fé
É uma posição legítima. Mas continua a faltar responder à pergunta essencial: com que dinheiro se vai pagar este “Estado Amparo”?
Até agora, a “Economia de Francisco” parece mais uma boa história para motivar eleitores do que um plano financeiro a sério.