
Numa campanha cada vez mais emocional, barulhenta e digital, a UCID parece ser o único partido que ainda acredita que a sensatez, por si só, ganha eleições. E isso, em 2026, pode ser, ao mesmo tempo, a sua maior virtude e o seu maior problema.
A UCID promete “um Cabo Verde mais justo”, mas a sua luta, hoje, parece ser outra: convencer o eleitorado de que ainda consegue crescer, e não apenas resistir.
A entrevista de João Santos Luís ao Expresso das Ilhas foi como um menu de degustação politicamente correto: um pouco de tudo, sem risco de indigestão ideológica. Promete-se descentralização, justiça social, combate ao custo de vida, um salário mínimo de 25 mil escudos, pensões reforçadas, transportes mais baratos, emprego para os jovens e uma saúde mais humana.
No fundo, a UCID posiciona-se como aquele amigo sensato no meio de uma discussão acalorada: fala baixo, organiza as ideias… mas arrisca-se a que ninguém o oiça, porque os outros dois, ao lado, estão aos berros.
“ é governo contra oposição, continuidade contra mudança”
A receita da UCID é antiga e conhecida: vender equilíbrio num país viciado na bipolarização. O partido sempre ocupou aquele espaço confortável do “nem um, nem outro”, do “somos o equilíbrio”, do “árbitro da democracia”. Em teoria, faz todo o sentido. O problema é que, na prática, as eleições em Cabo Verde continuam a ser vividas com a emoção de uma final de clássico: é governo contra oposição, continuidade contra mudança, Ulisses contra Francisco. E no meio deste dérbi, a UCID tenta convencer os eleitores de que a moderação ainda vale a pena.
E é aqui que a entrevista de João Santos Luís pisa em ovos. As autárquicas de 2024 deixaram feridas profundas. Em São Vicente – o bastião histórico que durante anos garantiu a representação parlamentar do partido – a UCID foi ultrapassada pelo PAICV. Esta não é uma mudança qualquer; é um sismo político. De repente, os famosos quatro deputados já não parecem um dado adquirido. O PAICV percebeu a oportunidade e avançou sobre a ilha com a clara intenção de ocupar o espaço. E quando um adversário começa a disputar o teu território histórico, é porque já sentiu o cheiro a fragilidade. Outro pormenor que a entrevista não consegue disfarçar é a dinâmica de lideranças. João Santos Luís é apresentado como o rosto forte e institucional da UCID, com um discurso organizado e moderado. Mas há uma sombra que paira sobre a campanha: António Monteiro. Durante décadas, Monteiro foi a própria identidade da UCID em São Vicente. Agora, surge discreto, num terceiro lugar na lista para o parlamento. Em política, um terceiro lugar raramente é promoção; parece mais um estacionamento estratégico.
UCID também entrou no campeonato nacional de promessas sobre os transportes interilhas
Há quem veja na sua posição menos uma aposta na liderança parlamentar e mais um bilhete de regresso garantido para a vereação da Câmara Municipal de São Vicente. A lista de promessas é generosa e vai ao encontro do que qualquer eleitor cansado quer ouvir: salários mais altos, pensões maiores, menos impostos, mais saúde, melhor educação e transportes mais baratos.
Falta apenas responder àquela pergunta inconveniente que costuma assombrar as campanhas: quem paga a conta? A resposta vem embrulhada em palavras bonitas como “reorganização económica”, “crescimento” e “dinamização da produtividade”. Ou seja, a folha de cálculo fica para depois das eleições. Como não podia deixar de ser, a UCID também entrou no campeonato nacional de promessas sobre os transportes interilhas. Parece que todos os partidos descobriram, ao mesmo tempo, que viajar entre ilhas é caro, os barcos falham e os aviões têm horários instáveis. A verdadeira novidade, que revolucionaria a campanha, seria um partido aparecer a dizer que os transportes estão ótimos. E talvez seja esta a maior ironia. A UCID apresenta um conjunto de propostas sensatas, organizadas e, no geral, menos populistas do que a concorrência. O problema é que, nos dias que correm, a racionalidade não se torna viral.
UCID, por sua vez, luta para garantir que continua a ser uma peça relevante no tabuleiro
Enquanto o PAICV aposta na emoção da mudança e o MpD vende estabilidade com vídeos de drones e música épica, a UCID soa como o adulto responsável numa festa de adolescentes cheia de TikToks. No fundo, a luta da UCID já não é apenas para crescer, mas para se manter indispensável.
O MpD quer segurar a maioria absoluta, o PAICV quer recuperá-la. A UCID, por sua vez, luta para garantir que continua a ser uma peça relevante no tabuleiro. Porque na política cabo-verdiana há um risco fatal: deixar de ser visto como uma alternativa necessária e passar a ser tratado apenas como uma simpática tradição parlamentar. João Santos Luís promete um Cabo Verde mais justo, descentralizado e equilibrado, e é provável que muita gente concorde com ele. A questão é outra: numa campanha cada vez mais emocional, barulhenta e digital, a UCID parece ser o único partido que ainda acredita que a sensatez, por si só, ganha eleições. E isso, em 2026, pode ser, ao mesmo tempo, a sua maior virtude e o seu maior problema.