
Ulisses Correia e Silva entrou oficialmente em campanha com uma mensagem simples: “deixem-me continuar”.
Nada de revoluções. Nada de refundações do Estado. Nada de promessas de mudar o mundo em quinze dias.
A estratégia do líder do Movimento para a Democracia é outra: vender estabilidade, continuidade e aquela clássica ideia política de que “já começámos a obra, agora não convém desligar a máquina”.
No fundo, Ulisses não está a pedir um novo voto de amor. Está a pedir renovação automática do contrato.
Promessas antigas com prazo de entrega atualizado
A matéria publicada por A Nação mostra um primeiro-ministro em modo inauguração antecipada.
Há promessas para:
Porto Novo
Brava
Fogo
Boa Vista
Santiago Norte
Santo Antão
Sal
Praticamente um roteiro turístico-eleitoral completo.
O detalhe curioso é que várias dessas obras já aparecem há anos no GPS político nacional. Algumas estão “a caminho”, outras “em fase avançada”, outras “já lançadas”, expressão elegante que normalmente significa: ainda não aconteceu, mas há PowerPoint.
O avião, o barco e a eterna promessa da conectividade
Ulisses voltou ao tema clássico das ligações interilhas.
O barco chega em junho.
O porto avança.
O aeroporto melhora.
A pista expande.
O terminal moderniza.
Em Cabo Verde, a conectividade é quase um género literário autónomo.
E o eleitor cabo-verdiano já aprendeu uma coisa importante: entre anunciar um barco e o barco realmente aparecer… às vezes passa mais tempo do que dar a volta ao arquipélago de …barco . Se houver barco.
Redução de impostos: o momento em que a plateia acorda
Entre todas as promessas, há sempre uma que faz o cidadão largar o telemóvel por cinco segundos: redução de impostos. Pois reduzir impostos em campanha eleitoral é tao fácil como Francisco Carvalho abaixar os preços em campanha eleitoral
O MpD promete aliviar empresas, aumentar salários e melhorar rendimentos.
Politicamente é inteligente. Afinal, depois de anos de inflação e custo de vida alto, qualquer frase com “redução” e “salário” na mesma linha ganha automaticamente aplauso. O problema é aquele detalhe antipático chamado Orçamento Geral do Estado. E o Olavo Correia não está em campanha para nos explicar como se baixa impostos e se sobe os salários e quem paga isso.
Fiquem sossegados os fiscalistas e economistas do MpD : campanha não é lugar para contas detalhadas. É lugar para esperança com sonorização.
“Influenciadores” políticos: do TikTok à vizinhança
Talvez o momento mais moderno expresso na reportagem seja o pedido aos apoiantes para serem “influenciadores” das ideias do partido.
A política cabo-verdiana entrou oficialmente na era do marketing digital comunitário.
Já não basta distribuir bandeiras.
Agora é preciso: convencer a família
mobilizar vizinhos, dominar grupos de WhatsApp, sobreviver aos memes.
O problema é que, no mundo das redes sociais, o eleitor também responde em tempo real — e às vezes com mais ironia do que respeito partidário.
A campanha fala de entusiasmo. As ruas falam de cansaço
Enquanto os discursos insistem em continuidade e confiança, o ambiente nas ruas continua menos elétrico do que noutras campanhas.
Há caravanas, sim.
Há bandeiras, claro.
Há música, inevitavelmente.
Mas há menos fervor espontâneo.
Talvez porque o eleitor esteja mais cansado.
Talvez porque o custo de vida anda mais convincente do que os slogans.
Ou talvez porque, depois de anos de crises globais, pandemias e promessas recicladas, o cidadão comum já escute campanhas com filtro automático ativado.
Ulisses joga no terreno mais seguro da política: “não inventar muito”
Ao contrário da oposição, que promete mudança estrutural, Ulisses aposta no argumento mais conservador possível: “o país está melhor do que estaria sem nós”.
É uma estratégia pragmática. Sem euforia excessiva. Sem promessas impossíveis de esconder depois. Sem saltos mortais políticos.
O risco?
Passar a imagem de gestão burocrática sem grande inspiração.
Conclusão à moda da maioria absoluta
Ulisses Correia e Silva pede mais um mandato para continuar o trabalho.
Francisco Carvalho pede um novo rumo para o país.
E no meio disso tudo, o eleitor cabo-verdiano parece cada vez mais dividido entre duas sensações: medo de mudar demais, cansaço de continuar igual
Porque no fim, talvez a grande pergunta destas eleições não seja quem promete mais.
Mas sim: em quem o país ainda consegue acreditar sem precisar de desconto emocional.
NN