Estamos, praticamente, no fim da primeira semana, da campanha eleitoral: mais uma temporada do grande campeonato político cabo-verdiano — aquele reality show nacional onde todos prometem salvar o país, mas onde, no fim, os eleitores continuam à procura do manual de instruções da felicidade.
Por: Eduino Santos

Na linha de partida estão cinco concorrentes: PAICV, Movimento para a Democracia, UCID, PTS e PP.
O objetivo? Conquistar os 72 mandatos distribuídos pelos 13 círculos eleitorais — dez no território nacional e três na diáspora, onde os partidos descobrem, de quatro em quatro anos, que os emigrantes afinal também existem e até votam.
72 cadeiras, muitas promessas e a mesma matemática difícil
O sistema é simples:
E como sempre acontece, todos entram na campanha com “grande confiança”, “energia renovada” e “forte ligação ao povo”.
Mesmo aqueles que o povo só vê em campanha.
O fantasma de 2021 continua sentado à mesa
Nas últimas legislativas, realizadas em abril de 2021, o Movimento para a Democracia venceu com maioria absoluta:
Os outros ficaram a assistir ao jogo pela televisão democrática.
Agora, a pergunta é saber se o eleitor vai renovar o contrato da estabilidade… ou tentar novamente aquele famoso “agora é que vai”.
Campanha em andamento … mas o entusiasmo parece em modo económico
O problema é que esta campanha arrancou num ambiente estranho.
Menos carros de som. Menos multidões. Menos bandeiras agitadas com entusiasmo genuíno. E muito menos aquele ambiente de festa que fazia de qualquer comício em Mindelo quase um festival popular.
Hoje os partidos falam… mas o povo parece ouvir com um ouvido e deslizar o dedo no telemóvel com o outro.
O MpD promete continuidade e estabilidade.
O PAICV promete mudança e reconstrução.
A UCID continua a tentar convencer o país de que existe uma terceira via.
O PTS e o PP entram para mostrar que a democracia também gosta de figurantes persistentes.
Enquanto isso, o eleitor olha para tudo isto com aquele ar de quem já viu demasiadas temporadas da mesma série.
E a verdadeira força política pode estar… na abstenção
Há um dado que paira silenciosamente sobre estas eleições: os níveis crescentes de abstenção.
Porque enquanto os partidos fazem contas aos deputados, há cada vez mais cidadãos a fazer outra conta:
“Vale mesmo a pena sair de casa para isto?”
E talvez essa seja a pergunta mais perigosa da campanha.
Conclusão à moda das urnas
Cinco partidos disputam 72 cadeiras.
Mas a sensação é que a grande batalha já não é apenas entre governo e oposição.
É entre a política… e o cansaço dos eleitores.
Porque em Cabo Verde continua a haver campanha, slogans, caravanas e discursos.
O que começa a faltar é aquela antiga convicção popular de que, depois das eleições, alguma coisa muda mesmo além dos cartazes.