Delegação iraniana leva memória das vítimas para o centro do processo de paz e transforma luto em pressão diplomática.
Um avião quase vazio, ocupado apenas por rostos que já não falam — e um número que ecoa como acusação: 168.
Por: Eduíno Santos

As primeiras negociações de paz no Médio Oriente arrancaram este sábado sob um silêncio carregado de significado. Do lado iraniano, não foram apenas diplomatas que chegaram ao encontro — foi também a memória de uma tragédia que o país se recusa a deixar cair no esquecimento.
A delegação apresentou-se como **“Minab 168”**, numa referência direta ao ataque que, a 28 de fevereiro, destruiu uma escola de raparigas na cidade de Minab e matou pelo menos 168 pessoas, entre alunas, professoras e familiares. Um episódio que marcou o início da guerra e que agora é colocado no centro da agenda política.
Mas foi a forma como essa memória foi transportada que chocou e chamou a atenção do mundo.
Os representantes iranianos viajaram num avião parcialmente vazio, onde, em vez de passageiros, estavam imagens das crianças mortas no ataque. Um memorial improvisado a milhares de metros de altitude — e uma mensagem clara: estas negociações não podem ignorar o custo humano da guerra.
Na manhã do ataque, as aulas decorriam normalmente na escola Shajareh Tayyebeh. Em minutos, tudo mudou. Um primeiro míssil atingiu o edifício, provocando o colapso da estrutura. Quando as crianças tentavam escapar, um segundo impacto atingiu o pátio. Há ainda relatos de um terceiro míssil.
O saldo foi devastador.
Investigações independentes indicam que o ataque poderá ter sido realizado com um míssil Tomahawk de fabrico norte-americano, embora Washington tenha negado qualquer ação deliberada contra civis e afirme estar a investigar o caso.
Ainda assim, para Teerão, a questão ultrapassa a origem do armamento: trata-se de responsabilização e memória.
Diplomacia com rosto humano
Ao levar as imagens das vítimas para o processo negocial, o Irão altera o enquadramento das conversações. Já não se discute apenas território, poder ou cessar-fogo. Discute-se também culpa, justiça e, sobretudo, humanidade.
A escolha do nome “Minab 168” é, por si só, um ato político. Um lembrete constante — para aliados e adversários — de que há vidas que não podem ser reduzidas a danos colaterais.
Negociações sob pressão moral
Num cenário onde as posições continuam distantes, a estratégia iraniana introduz um elemento difícil de contornar: a pressão moral.
Porque, no fim, por trás de cada decisão tomada à mesa das negociações, existem rostos — como os que viajaram naquele avião silencioso.
E esses, ao contrário dos discursos, não podem ser ignorados.