Por: Eduíno Santos

Há explosões no Golfo. Sirenes. Fumo perto de embaixadas. Petróleo a tremer nos mercados. O mundo em sobressalto. E Cabo Verde? Cabo Verde está — como sempre — em modo avião institucional.
O Governo observa, sereno, imóvel, quase zen. Se o planeta estivesse a arder literalmente, provavelmente sairia uma nota protocolar três semanas depois, escrita em fonte tamanho 9, com linguagem capaz de adormecer um café expresso.
Não é falta de informação. É tradição.
Cabo Verde depende do exterior como um telemóvel depende de carregador. Combustível vem de fora. Alimentos vêm de fora. Transporte depende de combustível que vem de fora. Até a inflação, essa, também vem de fora — chega importada, com selo internacional e sem direito a devolução.
Mas perante a possibilidade de um conflito numa das regiões que abastece o mundo de energia, o Governo opta pela estratégia clássica: não explicar nada para não alarmar ninguém — ou para não ter de assumir que também não controla nada.
Porque explicar implicaria dizer coisas desconfortáveis:
Que o preço da gasolina pode disparar.
Que a eletricidade pode ficar mais cara.
Que o custo de vida — já olímpico — pode entrar em modo estratosférico.
Que o turismo pode tossir antes mesmo de espirrar.
E isso quebraria a narrativa oficial de estabilidade tropical permanente, onde tudo corre bem exceto a realidade.
O silêncio, aliás, é politicamente eficiente. Não gera manchetes. Não cria compromissos. Não exige planos. É uma espécie de política pública minimalista: governa-se por omissão.
Enquanto isso, o cidadão comum faz o que sempre fez: adapta-se. Cabo Verdeano é especialista mundial em viver com preços europeus e salários de ficção científica — mas ao contrário.
Se o petróleo subir, sobe o transporte.
Se sobe o transporte, sobe tudo.
Se sobe tudo, sobe a resignação nacional, esse recurso renovável que nunca entra nas estatísticas.
Talvez o cálculo seja este: como o país não pode influenciar o conflito, também não precisa de preparar a população para as consequências. Uma lógica curiosa — semelhante a não falar de chuva porque não controlamos as nuvens.
Mas governar não é controlar o mundo. É preparar o país para ele.
No fim, resta a sensação de que Cabo Verde vive numa bolha diplomática onde os acontecimentos globais só existem depois de afetarem diretamente o preço do pão. A geopolítica só entra na agenda quando entra no carrinho de compras.
Até lá, silêncio.
Não o silêncio estratégico das grandes potências.
Mas o silêncio confortável de quem espera que a tempestade passe…mesmo sabendo que as ondas sempre chegam às ilhas.