Silêncio Estratégico ou Sonolência Nacional?

2/03/2026 12:25 - Modificado em 2/03/2026 12:25

Por: Eduíno Santos 


Foto: Tasnim News Agency/ZUMA/picture alliance

Há explosões no Golfo. Sirenes. Fumo perto de embaixadas. Petróleo a tremer nos mercados. O mundo em sobressalto. E Cabo Verde? Cabo Verde está — como sempre — em modo avião institucional.

O Governo observa, sereno, imóvel, quase zen. Se o planeta estivesse a arder literalmente, provavelmente sairia uma nota protocolar três semanas depois, escrita em fonte tamanho 9, com linguagem capaz de adormecer um café expresso.

Não é falta de informação. É tradição.

Cabo Verde depende do exterior como um telemóvel depende de carregador. Combustível vem de fora. Alimentos vêm de fora. Transporte depende de combustível que vem de fora. Até a inflação, essa, também vem de fora — chega importada, com selo internacional e sem direito a devolução.

Mas perante a possibilidade de um conflito numa das regiões que abastece o mundo de energia, o Governo opta pela estratégia clássica: não explicar nada para não alarmar ninguém — ou para não ter de assumir que também não controla nada.

Porque explicar implicaria dizer coisas desconfortáveis:

Que o preço da gasolina pode disparar.

Que a eletricidade pode ficar mais cara.

Que o custo de vida — já olímpico — pode entrar em modo estratosférico.

Que o turismo pode tossir antes mesmo de espirrar.

E isso quebraria a narrativa oficial de estabilidade tropical permanente, onde tudo corre bem exceto a realidade.

O silêncio, aliás, é politicamente eficiente. Não gera manchetes. Não cria compromissos. Não exige planos. É uma espécie de política pública minimalista: governa-se por omissão.

Enquanto isso, o cidadão comum faz o que sempre fez: adapta-se. Cabo Verdeano é especialista mundial em viver com preços europeus e salários de ficção científica — mas ao contrário.

Se o petróleo subir, sobe o transporte.

Se sobe o transporte, sobe tudo.

Se sobe tudo, sobe a resignação nacional, esse recurso renovável que nunca entra nas estatísticas.

Talvez o cálculo seja este: como o país não pode influenciar o conflito, também não precisa de preparar a população para as consequências. Uma lógica curiosa — semelhante a não falar de chuva porque não controlamos as nuvens.

Mas governar não é controlar o mundo. É preparar o país para ele.

No fim, resta a sensação de que Cabo Verde vive numa bolha diplomática onde os acontecimentos globais só existem depois de afetarem diretamente o preço do pão. A geopolítica só entra na agenda quando entra no carrinho de compras.

Até lá, silêncio.

Não o silêncio estratégico das grandes potências.

Mas o silêncio confortável de quem espera que a tempestade passe…mesmo sabendo que as ondas sempre chegam às ilhas.

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