No fim, fica uma dúvida simples, quase doméstica: Não sei se estamos perante um caso para a ARC…
ou para o serviço de psiquiatria. Em qualquer dos casos, convinha que alguém desligasse a câmara. Por favor!
Por Eduíno Santos

Cabo Verde já viu de tudo em política: promessas impossíveis, alianças improváveis, indignações seletivas e até candidatos folclóricos. O que ainda não tínhamos visto — pelo menos não em horário nobre da televisão pública — era um cenário que oscila perigosamente entre o teatro do absurdo e o ensaio geral para um pesadelo institucional.
Não, o problema não começa no candidato. Democracia implica tolerar candidatos excêntricos, extravagantes ou até delirantes. A urna serve precisamente para isso: para que o povo filtre o sério do risível sem necessidade de tribunais nem de camisas-de-força.
O problema começa quando o serviço público decide que aquilo merece palco, luz, câmara e transmissão.
Porque o que se viu não foi uma simples cobertura jornalística. Foi uma leviandade editorial monumental — uma verdadeira “caboverdura”editorial, dessas que se fazem com um encolher de ombros e um “deixa andar” que, por alguma razão insondável, às vezes governa decisões que deveriam ser ponderadas ao milímetro.
Filmar um candidato presidencial num terraço escuro, rodeado de homens encapuzados, armados, com gestos e encenação que evocam mil coisas — nenhuma delas compatível com normalidade democrática — não é jornalismo. É, na melhor das hipóteses, imprudência. Na pior, é cumplicidade estética com o grotesco.
E depois há o conteúdo.
As propostas apresentadas não pareciam um programa político, mas um amontoado de ideias que, num Estado de Direito, soam menos a alternativa de governação e mais a sintoma clínico. Não é questão ideológica — é questão de realidade. Há discursos que se combatem com argumentos e há discursos que pedem, antes de tudo, um exame de sanidade institucional do espaço que os amplifica.
Sabe-se que a loucura não escolhe os cavalos que cavalga. Sempre foi assim. O que é novo é ver a televisão pública oferecer-se voluntariamente como montada, selada e em passo de desfile — permitindo que a extravagância mais descontrolada atravesse o ecrã e entre, sem filtro, nas salas de estar do país.
Liberdade de expressão? Evidentemente.
Liberdade de antena pública sem critério? Isso já é outra conversa.
Uma coisa é um cidadão dizer o que quiser numa praça, num comício ou numa rede social. Outra, muito diferente, é o Estado — através do seu canal — conferir estatuto, enquadramento e aparência de normalidade a algo que, fora das câmaras, provavelmente suscitaria mais preocupação do que aplauso.
É aqui que a questão deixa de ser sobre o candidato e passa a ser sobre a televisão pública.
Que critérios editoriais foram aplicados?
Que avaliação de interesse público foi feita?
Que ponderação houve sobre o impacto simbólico de normalizar uma estética de intimidação?
Ou, numa formulação menos diplomática: alguém naquela redação parou um segundo para perguntar se aquilo fazia sentido?
A Autoridade Reguladora da Comunicação Social poderá ter matéria para análise, sem dúvida. Mas confesso que, depois do que vimos, não sei se o caso pertence apenas ao domínio regulatório. Talvez também interesse a quem estuda fenómenos de perceção da realidade, contágio simbólico e responsabilidade institucional.
Porque uma coisa é certa: quando o serviço público abdica do filtro que o distingue do ruído geral, deixa de ser bússola e passa a ser megafone. E megafones amplificam tudo — inclusive o absurdo.
Cabo Verde construiu a sua democracia com serenidade, moderação e um certo bom senso coletivo que sempre funcionou como anticorpo contra radicalismos de opereta. Não foi para isto que se criou uma televisão pública: para transformar o insólito em espetáculo e o inquietante em entretenimento político.
No fim, fica uma dúvida simples, quase doméstica:
Não sei se estamos perante um caso para a ARC…
ou para o serviço de psiquiatria.
Em qualquer dos casos, convinha que alguém desligasse a câmara. Já!