
À crescente instalação de bancadas em pontos estratégicos do percurso dos desfiles, limitando o acesso do público aos melhores locais para assistirem o Carnaval do Mindelo, São Vicente, num ano em que apenas desfilam dois grupos, o Flores do Mindelo e Cruzeiros do Norte, tem gerado alguma contestação.
A mais recente decisão da Liga Independente dos Grupos Oficiais do Carnaval de São Vicente (LIGOC-SV) passa pela colocação de bancadas no lado central da Telecom, em frente ao Mindel Hotel, uma zona que, até agora, permanecia livre e acessível à população, transformando, na prática, os melhores lugares num espaço reservado a quem possui bilhete.
Esta nova configuração junta-se às bancadas já instaladas na Rua de Lisboa, na Avenida Baltazar Lopes da Silva, ao longo de praticamente todo o trajecto, e na Praça Nova, resultando numa ocupação quase total dos principais pontos de observação.
Na Praça Nova, tradicional local de eleição para milhares de pessoas acompanharem a festa, a situação é particularmente sensível. Apesar da presença de bancadas, a organização decidiu “vedar” quase toda a praça, deixando apenas um espaço aberto numa área considerada menos favorável para assistir aos desfiles.

A medida tem gerado forte contestação por parte da população que consideram estar a assistir a uma progressiva privatização do espaço público durante o maior evento popular da ilha. Muitos defendem que a instalação das bancadas poderia ser feita de forma mais equilibrada, garantindo áreas livres suficientes para que todos possam assistir aos desfiles, como tradicionalmente acontecia.
As críticas estendem-se também à montagem de camarotes, nomeadamente junto ao Palácio do Povo, um modelo introduzido em 2024 e que, está a ser replicado e deverá ser ampliado nos próximos anos. Para vários cidadãos, esta tendência acentua ainda mais a distinção entre quem pode pagar e quem fica excluído.
Outro ponto que tem causado desagrado é a forma de comercialização dos bilhetes para as bancadas, que, alegadamente, só podem ser adquiridos com dinheiro em numerário, não sendo aceites pagamentos através de cartão vinti4 ou Visa, o que levanta questões sobre acessibilidade e transparência.
Nas redes sociais e nas conversas de rua, multiplicam-se as vozes críticas que lamentam a transformação do Carnaval de Mindelo num evento cada vez mais elitizado. “Carnaval de Mindelo, quem te viu e quem te vê”, dizem muitos, num tom de desilusão, acusando a organização de privilegiar apenas lógica do lucro, esquecendo que este é um evento popular e que deve ser permitido acesso a todos.
Para vários mindelenses, esta nova configuração não só compromete o espírito tradicional do Carnaval, como afasta os mais pobres, as crianças e as pessoas com deficiência, que historicamente sempre encontraram neste evento um espaço de alegria, partilha e pertença.
A polémica está lançada e promete marcar o debate em torno da organização do Carnaval nos próximos anos, num momento em que cresce o apelo por um modelo mais equilibrado, inclusivo e fiel à identidade cultural de São Vicente.