Por: Eduíno Santos

O Four Points by Sheraton Mindelo já abriu portas, as luzes acenderam-se, o nome internacional impôs respeito e o Mindelo ganhou, sem dúvida, um novo cartão-de-visita. Mas como quase tudo em Cabo Verde quando envolve grandes investimentos, a história não se faz apenas de aplausos. Faz-se também de perguntas incómodas — e necessárias que normalmente não são feitas no espaço próprio.
Uma delas tem sido pouco dita em voz alta, mas muito cochichada nos cafés e nas redes: o aval do Governo a um empréstimo bancário que viabilizou o empreendimento. Um aval público, desses que não aparecem na fotografia da inauguração, mas que ficam bem visíveis na contabilidade do Estado. Traduzindo para linguagem simples: se o projeto falhasse redondamente, a fatura não ficaria apenas no lobby do hotel — poderia acabar no bolso dos contribuintes.
É aqui que surgem as críticas. Não por má vontade com o investimento, nem por antipatia à hotelaria de cinco estrelas, mas porque o risco foi, em parte, socializado. E quando o risco é público, o debate também deve ser público. Não é pecado perguntar se o Estado deve ou não servir de fiador em negócios privados, sobretudo num país de recursos escassos e prioridades urgentes.
Dito isto — e dito com frontalidade — este não parece ser um daqueles projetos condenados à partida,( não parece ser o projeto do Djéu da Praia). Pelo contrário. O hotel assenta numa marca sólida, numa cidade com identidade própria, numa ilha com cultura exportável e, sobretudo, numa estratégia que liga turismo, eventos, conectividade aérea e economia urbana. Não estamos a falar de um elefante branco plantado numa praia; estamos a falar de um investimento ancorado no coração simbólico do Mindelo.
O Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva foi claro ao sublinhar o impacto económico, o emprego, o segmento alto e a capacidade para congressos. O discurso é coerente com a ideia de que São Vicente não pode viver apenas da nostalgia cultural nem da informalidade criativa: precisa de infraestruturas que transformem talento em rendimento e cultura em economia.
Ainda assim, convém não romantizar. O aval do Estado é uma aposta, não uma garantia divina. A aposta pode correr bem — e há fortes indícios de que corra — mas deve ser acompanhada com transparência, exigência e fiscalização. Quando o risco é partilhado, o escrutínio também tem de o ser.
E, no entanto, há um detalhe curioso, quase metafísico, que escapa às planilhas financeiras: parece que Deus anda a insistir em ser mindelense. Num mundo em sobressalto, Mindelo continua a atrair projetos, talentos, música, encontros e agora também investimento de alto nível. Não por milagre, mas por persistência, identidade e uma estranha capacidade de sobreviver às marés contrárias.
Se tudo correr bem — e tudo indica que sim — o hotel não será lembrado como um peso para os contribuintes, mas como um risco calculado que valeu a pena. Se correr mal, teremos de assumir coletivamente que errámos. É assim que funciona a maturidade democrática.
Por agora, entre a prudência económica e a fé urbana, Mindelo segue em frente.
E Deus, ao que tudo indica, continua a gostar de ficar por cá, desde que veio por cá derramar a alegria que faz esta cidade viver e acreditar que um dia deixará de ser a cidade das oportunidades perdidas.
Por Eduíno Santos