Por Eduino Santos

Quando o então ministro das Finanças francês Valéry Giscard d’Estaing cunhou a expressão poder exorbitante para descrever o privilégio monetário dos Estados Unidos, fê-lo a partir do coração da Europa. Ainda assim, poucas regiões compreendem melhor esse conceito do que África — e, em particular, os pequenos países atlânticos como Cabo Verde.
O poder exorbitante não é um slogan ideológico. É um facto estrutural: os Estados Unidos emitem a moeda que o mundo aceita como reserva de valor. Isso permite-lhes financiar défices, importar inflação e exercer influência geopolítica sem enfrentar as restrições impostas a qualquer outro país. O dólar não é apenas uma moeda; é um instrumento de poder.
Para a África lusófona, este sistema nunca foi abstrato. Em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou Cabo Verde, o dólar — e, por extensão, o euro — estrutura a economia quotidiana: define o custo da dívida, o preço da energia, o valor das importações e até o alcance das políticas públicas. Decisões tomadas em Washington repercutem-se, com atraso mas com força, em economias que não têm voto nem voz nesses centros de decisão.
Em Cabo Verde, essa dependência é particularmente visível. Arquipélago sem recursos naturais estratégicos, dependente do exterior para energia, alimentos e financiamento, o país vive num equilíbrio delicado. A estabilidade cambial e financeira é uma conquista real, mas frágil. Cada subida das taxas de juro nos Estados Unidos traduz-se, mais cedo ou mais tarde, em constrangimentos orçamentais e pressão sobre o custo de vida. O poder exorbitante sente-se aqui não como conceito teórico, mas como experiência quotidiana.
É neste quadro que a redução gradual da exposição chinesa a ativos americanos merece atenção. A China, grande detentora de títulos do Tesouro dos EUA durante décadas, começou a diversificar reservas, acumular ouro e promover transações comerciais fora do dólar. Não se trata de um gesto de confronto direto, mas de prudência estratégica. Pequim reconhece que o dólar é simultaneamente pilar do sistema global e fonte de vulnerabilidade.
Para África, este movimento é ambivalente. A lenta erosão do monopólio do dólar pode abrir espaço a maior pluralidade financeira e a novas formas de cooperação. Mas um sistema monetário mais fragmentado também pode significar maior volatilidade e novos riscos para economias pequenas e abertas. A história ensina que as transições globais raramente beneficiam, de imediato, quem está na periferia.
Convém, por isso, evitar ilusões. A diminuição do peso do dólar não equivale automaticamente a maior soberania africana. O poder exorbitante não reside apenas na moeda, mas na arquitetura histórica do sistema: dívida, tecnologia, controlo dos fluxos financeiros, capacidade institucional. Trocar um centro por outro não altera, por si só, a posição relativa de quem sempre esteve à margem.
Para países como Cabo Verde, a verdadeira resposta não passa por alinhar cegamente num novo eixo geopolítico, mas por reforçar a resiliência interna: economias mais diversificadas, Estados mais eficientes, maior autonomia energética e alimentar, instituições capazes de absorver choques externos. É nessa base que se constrói margem de manobra real.
O poder exorbitante existe e continuará a existir enquanto o mundo precisar de uma moeda dominante. Mas o seu peso sente-se mais intensamente em quem nunca o exerceu. Olhar esse poder a partir do Atlântico africano é lembrar que a grande questão não é quem manda no dinheiro do mundo, mas quem paga, silenciosamente, o custo dessa ordem.
Com IA