Em nome da razão futura: quando a diplomacia também constrói países

25/01/2026 14:52 - Modificado em 25/01/2026 21:18

Por : Eduino Santos 

No próximo 27 de janeiro de 2026, em Mindelo, não se apresentará apenas um livro. Apresenta-se uma ideia de país. E isso faz toda a diferença.

Em Nome da Razão Futura: Radiografias, Testemunhos e Correspondências, de Silvino da Luz, chega ao espaço público como chegam os livros que contam: sem alarido, mas com densidade. Não vem disputar manchetes fáceis nem alimentar nostalgias confortáveis. Vem fixar memória — e, ao fazê-lo, interpelar o presente.

Há uma tendência recorrente, em Cabo Verde, para falarmos da nossa história diplomática como se ela fosse uma sucessão de gestos protocolares, de alinhamentos prudentes e de silêncios estratégicos. O livro de Silvino da Luz desmonta essa leitura simplificada. Mostra que houve pensamento, risco, decisão — e sobretudo vontade política.

Cabo Verde, pequeno no mapa e curto em recursos, foi grande quando decidiu apostar na razão em vez do ruído, na mediação em vez da confrontação, na credibilidade em vez da força. O papel desempenhado na África Austral, nos processos que conduziram à independência da Namíbia e ao fim do apartheid, não foi acidental. Foi construção paciente, feita de bastidores, de diálogos discretos e de escolhas difíceis.

É isso que este livro revela: a diplomacia como lugar de ética. A política externa como extensão de um projeto nacional consciente. E a independência não apenas como ato fundacional, mas como exercício permanente de responsabilidade.

A “razão futura” de que fala Silvino da Luz não é um slogan. É uma advertência. Governa-se mal quando se governa apenas para o imediato. Decide-se mal quando se esquece que cada gesto político deixa rasto. Num tempo em que o debate público se encurta e a memória se fragmenta, este livro lembra-nos que há decisões que só fazem sentido quando pensadas para durar.

As correspondências e testemunhos incluídos na obra têm esse valor raro: mostram a política sem maquilhagem. Revelam dúvidas, pressões externas, equilíbrios frágeis. Humanizam o Estado e devolvem complexidade à História — algo que nos tem faltado.

Não é irrelevante que a apresentação aconteça em Mindelo, no Auditório Onésimo Silveira, numa iniciativa da Universidade de Mindelo, com o apoio da Fundação Amílcar Cabral e da Rosa de Porcelana Editora. Mindelo continua a ser esse lugar onde o país se pensa para além do imediato, onde a palavra ainda pesa e a reflexão ainda conta.

Apresentar este livro no ano do cinquentenário da independência não é gesto protocolar. É escolha política e cultural. Porque celebrar cinquenta anos não é apenas recordar o que fomos, mas perguntar — com honestidade — o que fizemos bem, o que esquecemos e o que estamos dispostos a corrigir.

Em Nome da Razão Futura não fecha debates. Abre-os. E num país que precisa urgentemente de voltar a discutir o seu lugar no mundo com profundidade e sem slogans, isso já é, por si só, um ato de serviço público

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.