Por : Eduino Santos

Há datas que servem para lembrar a história. Outras, mais úteis, servem para a reexplicar até ela caber no discurso oficial do dia. O Dia dos Heróis Nacionais, infelizmente, tem vindo a cair perigosamente na segunda categoria.
O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, em tom grave e voz de estadista, voltou a lembrar-nos que Amílcar Cabral foi “um grande símbolo”, mas que “o regime após a independência não foi protagonizado por Cabral”. Traduzindo para português corrente: Cabral libertou, outros estragaram; Cabral sonhou, outros governaram; Cabral morreu a tempo de não ter culpa.
É uma tese elegante. Também é confortável. E, acima de tudo, é politicamente útil.
Porque se Cabral não tem nada a ver com o partido único, com a LOPE, com a supressão do pluralismo, com o centralismo político e com o silêncio imposto a quem discordava, então ninguém tem. O regime apareceu sozinho, como uma intempérie histórica, um acidente de percurso, uma espécie de ciclone ideológico que caiu sobre Cabo Verde sem aviso prévio.
Curioso é que esse mesmo regime foi conduzido pelos seus mais próximos colaboradores, discípulos dilectos, companheiros de trincheira, homens que comiam da mesma marmita ideológica e falavam a mesma gramática política. Aristides Pereira e Pedro Pires não foram enviados por engano para governar o país. Vieram directamente do núcleo duro do PAIGC, esse partido que, afinal, agora parece ter sido marxista-leninista… mas só depois da morte de Cabral.
Aqui começa a ginástica histórica.
O PAIGC de Cabral não era marxista-leninista? Era “apenas” um movimento revolucionário armado, com quadros formados no bloco socialista, organizado segundo o centralismo democrático, avesso ao multipartidarismo e profundamente desconfiado da democracia liberal. Mas claro, tudo isso era provisório. O definitivo — a democracia, o voto livre, o pluralismo — viria depois. Só que esse “depois” nunca veio. Veio apenas em 1991, empurrado por um mundo que já tinha mudado e por um país cansado de unanimidades obrigatórias.
Agora, cinquenta anos depois, tenta-se resolver o incómodo com uma operação simples: Cabral fica com a poesia, o regime fica com a prosa feia. Cabral passa a ser uma espécie de democrata avant la lettre, defensor do voto universal, do pluralismo político e talvez, a este ritmo, até do Estado de direito constitucional moderno — tudo sem nunca o ter escrito, dito ou proposto de forma clara.
Não há um discurso de Cabral a defender eleições multipartidárias.
Não há um texto seu a rejeitar o partido único.
Não há uma posição sua favorável à autonomia em alternativa à independência.
Mas há, isso sim, uma necessidade contemporânea de transformar Cabral num antepassado político consensual, suficientemente neutro para caber em todos os discursos e suficientemente morto para não protestar.
O problema não é homenagear Cabral. O problema é usá-lo como escudo: contra a responsabilidade histórica, contra o debate sério sobre o pós-independência, contra a memória das vítimas do silêncio político, do esquecimento e das mortes de 1977 em São Vicente e 1981 em Santo Antão. Cabral merece ser estudado, lido, debatido — não santificado nem instrumentalizado.
Separar Cabral do regime pode aliviar consciências.
Mas não esclarece a história.
E uma nação que precisa de reescrever o passado para se sentir confortável no presente, corre sempre o risco de não aprender nada com nenhum dos dois.