
O Presidente da República, José Maria Neves, defendeu a necessidade urgente de elevar o nível do debate político em Cabo Verde, alertando para um contexto internacional cada vez mais complexo e marcado pelo desrespeito ao direito internacional, à soberania dos Estados e à integridade territorial dos países. A posição foi assumida durante a apresentação do livro No Ofício do Bem Comum – Volume IV.

Segundo o Chefe de Estado, as guerras por recursos e o enfraquecimento das regras internacionais acabam por tornar pequenos Estados, como Cabo Verde, particularmente vulneráveis. Por isso, sublinhou que estas questões devem ser abordadas com inteligência, sabedoria e prudência, exigindo uma reflexão profunda sobre a forma como se faz política no país e sobre o funcionamento das instituições.
José Maria Neves voltou a destacar a importância da geração Z, também conhecida como geração 2000, tema central da Semana da República. Para o Presidente, trata-se de uma geração frequentemente rotulada como “perdida”, mas que, na realidade, possui uma nova gramática, uma nova linguagem e fortes aspirações ao progresso, à justiça social, à boa governação, à qualidade da despesa pública e à proteção ambiental.
“O problema não está nos jovens, mas na incapacidade das instituições tradicionais de descodificarem a sua linguagem e responderem às suas expectativas”, afirmou, apontando falhas na família, na escola, nos partidos políticos, nas universidades, nas igrejas e nos sindicatos.
No setor da educação, o Presidente foi particularmente crítico, considerando que as escolas estão atrasadas 40 ou 50 anos face às mudanças tecnológicas. “O que um professor ensina numa semana, um adolescente resolve em 30 segundos com recurso à inteligência artificial. Não faz sentido continuar a fazer a mesma coisa”, disse, defendendo uma escola que ensine os jovens a descobrir, a pensar e a encontrar respostas para os seus próprios anseios.
Esta desconexão, segundo José Maria Neves, ajuda a explicar o afastamento dos jovens da política e o sentimento generalizado de crise nas instituições sociais, incluindo a família. Nesse contexto, recomendou a leitura atenta das encíclicas e exortações apostólicas do Papa Francisco, que, segundo afirmou, apelam a uma comunicação mais simples, inspiradora e adaptada aos tempos atuais.
O Presidente referiu-se também ao impacto negativo das redes sociais, que, na sua visão, promovem o imediatismo, o curto prazo e a superficialidade, gerando ansiedade, stress e pouca sabedoria. Defendeu, por isso, a limitação ou mesmo a proibição do uso de telemóveis nas escolas, sobretudo entre crianças e adolescentes, à semelhança do que já acontece em países mais desenvolvidos.
José Maria Neves alertou ainda para o ambiente de agressividade e ausência de filtros nas redes sociais, onde ataques pessoais e ofensas se tornaram frequentes, influenciando negativamente a vida política, familiar e social. “Hoje qualquer pessoa, num momento de mau humor, publica ou faz um direto sem qualquer filtro, destruindo relações e alimentando um clima de inimizade”, observou.
Para o Chefe de Estado, este cenário contribui para o isolamento das pessoas e para a fragmentação da sociedade, reduzindo o convívio e a sociabilidade que existiam anteriormente. Daí a necessidade de encontrar “antídotos” e promover uma renovação institucional ampla, que inclua não apenas as estruturas formais, mas também os hábitos mentais e as formas de relacionamento social.
Na parte final da sua intervenção, José Maria Neves destacou a importância do debate sobre a separação de poderes, tema abordado no livro. Revelou que a decisão de se candidatar à Presidência da República foi fruto de uma reflexão profunda sobre o papel e as responsabilidades do cargo, sublinhando que a maturidade institucional e democrática exige ponderação, equilíbrio e sentido de serviço público.
A apresentação do livro serviu, assim, como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre os desafios contemporâneos de Cabo Verde e a necessidade de adaptação das instituições a um mundo em rápida transformação.
NN