OPINIÃO | Caução para entrar na América, amnésia para governar

7/01/2026 20:13 - Modificado em 7/01/2026 20:13
Emigrantes EUA

Por : Eduino Santos

Os cabo-verdianos não chegaram à América guiados por vistos. Chegaram guiados pela coragem de perseguir baleias, correntes marítimas e pela urgência de não morrer de fome em terra. Convém que o Governo se lembre disso antes de apontar o dedo.

Porque, na história da emigração cabo-verdiana, quem nunca foi clandestino ou não teve um clandestino na família … que atire o primeiro comunicado. Legalidade sem memória não é política externa. É amnésia de Estado.

O Governo de Cabo Verde acordou no dia 7 de janeiro de 2026 com uma notícia desagradável: os Estados Unidos decidiram que os cabo-verdianos passam a valer até 15 mil dólares de caução antes mesmo de poderem sonhar com um visto de turismo ou negócios. Uma espécie de fiança preventiva, como se a nacionalidade fosse já um indício de culpa.

O Governo “lamenta”. Lamenta muito. Mas logo a seguir faz o essencial: lava as mãos e aponta o dedo. A culpa — diz o comunicado — é dos cabo-verdianos que não respeitam as leis americanas, que ficam além do tempo permitido, que caem no pecado moderno do overstay. O Estado de Cabo Verde não tem nada a ver com isso. Nada. Zero. Absolutamente nada.

É uma posição elegante, tecnocrática e estatisticamente impecável. Até cita números do Departamento de Homeland Security: 13,26% de overstay em 2024. Percentagem transformada em sentença moral. Percentagem usada como chicote. Percentagem arrancada do contexto histórico como se a emigração cabo-verdiana tivesse começado em 2013… ou num Excel do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O problema do comunicado do Governo não é o número. O problema é a memória curta. Porque convém perguntar: como é que os cabo-verdianos chegaram aos EUA, afinal? Foi com vistos de turismo? Com cauções? Com formulários online? Não. Chegaram a perseguir baleias. A fugir a fome em terra.

Durante o século XIX e início do XX, milhares de cabo-verdianos embarcaram em navios baleeiros americanos e desembarcaram na Nova Inglaterra sem vistos, sem autorizações e sem pedir licença a ninguém. À luz das leis atuais, seriam todos “overstayers”. À luz da sobrevivência, eram apenas homens a fugir da fome, da seca e da morte anunciada nas ilhas.

Mas disso o comunicado não fala. Prefere a narrativa confortável do lambe botas: o Estado é virtuoso, o emigrante é irresponsável. Uma narrativa muito útil diplomaticamente, mas profundamente ingrata historicamente.

O Governo diz que a situação “resulta de comportamentos individuais que nada têm a ver com o Estado”. Curioso. Quando as remessas entram, quando a diáspora sustenta famílias, paga escolas e equilibra a balança externa, já tem tudo a ver com o Estado. Quando surgem problemas, vira tudo comportamento individual. A diáspora serve para enviar dinheiro, não para ser compreendida.

O mais irónico é isto: se as regras atuais existissem no passado, a diáspora cabo-verdiana simplesmente não existiria. Não haveria comunidades em New Bedford, Boston ou Providence. Não haveria igrejas, associações, redes de acolhimento. Não haveria “bons exemplos” para hoje condenarem os “maus exemplos” de agora.

O Governo apela à responsabilidade dos visitantes e de quem os acolhe. Faz bem. Mas esquece-se de apelar a algo mais urgente: responsabilidade histórica. Porque um país que construiu a sua sobrevivência na emigração não pode, de um dia para o outro, fingir que sempre foi um aluno exemplar da legalidade internacional.

A caução de 15 mil dólares é humilhante, sim. Mas mais humilhante é ver o próprio Governo aceitar o enquadramento moral dos outros sem sequer defender a sua própria história.Os cabo-verdianos não chegaram à América guiados por vistos. Chegaram guiados pela fome, pelo mar e pela coragem. Antes de condenar overstays, talvez o Governo devesse lembrar que Cabo Verde é um país fundado por emigrantes — muitos deles, clandestinos por necessidade.

Uma política migratória pode — e deve — defender a legalidade. O que não pode é fazer isso cuspindo na própria biografia nacional. Legalidade sem memória não é virtude; é hipocrisia institucional.A nossa gente chegou a América guiada pela coragem de perseguir baleias, correntes marítimas e pela urgência de não morrer em terra. Convém que o Governo se lembre disso antes de apontar o dedo. Porque, na história da emigração cabo-verdiana, quem nunca foi clandestino ou não teve um na família … que atire o primeiro comunicado.Legalidade sem memória não é política externa.É amnésia de Estado.

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