Por: Eduino Santos

Há guerras que começam com um PowerPoint e acabam num cemitério. Outras começam com um tweet e acabam num aperto de mão forçado. O resultado prático costuma ser o mesmo para quem está do lado errado do míssil, mas o mundo insiste em fingir que há bombas mais educadas do que outras.
O Iraque foi o grande espetáculo da mentira bem penteada. Sob a batuta de George H. W. Bush e, com redobrada convicção, de George W. Bush, venderam ao planeta a fábula das armas de destruição massiva. Nunca existiram, mas deram um jeitão. Serviram para arrasar um país, matar centenas de milhares de iraquianos e devolver aos Estados Unidos soldados que trouxeram a guerra dentro da cabeça.
Estudos acadêmicos e relatórios dos EUA indicam que em torno de 30 000 veteranos dos conflitos pós-11 de setembro (incluindo Iraque e Afeganistão) morreram por suicídio ao longo de muitos anos, superando o número de militares mortos em combate – número modesto para relatórios oficiais, devastador para qualquer noção de decência.
O Afeganistão foi a versão longa da mesma peça. Entrou-se para libertar, ficou-se para civilizar e saiu-se à pressa, deixando um país em ruínas e a humilhante constatação de que vinte anos, biliões de dólares e milhares de mortos não compram um final feliz. A democracia não se instala com tanques; no máximo, estaciona por uns meses.
Depois veio a Líbia, com Barack Obama a assinar uma intervenção “limpa”, “necessária” e “humanitária”. O vocabulário foi mais suave, as bombas igualmente eficazes. Resultado: um Estado desfeito, milícias armadas, tráfico humano e um caos regional que ninguém assume. Mas atenção: tudo foi feito com boas intenções, que é a forma elegante de lavar as mãos depois do estrago.
E então aparece Donald Trump, o corpo estranho no salão diplomático. Linguagem grosseira, frases curtas, zero poesia. Mas eis o pecado capital: diz em voz alta o que os outros cochicharam durante décadas. Venezuela? Petróleo. Interesses norte-americanos. Influência estratégica. Fim do discurso. Nada de frascos imaginários, nada de relatórios secretos, nada de salvar o mundo à força.
Mais perturbador ainda: Trump não segue o manual clássico da destruição prolongada. Não invade para ficar, não ocupa para ensinar, não derruba regimes para depois fingir espanto com o caos. Pressiona, ameaça, força colaboração e vai embora. É brutal? Sim. É hipócrita? Menos do que a média histórica.
O desconforto vem daí. O mundo tolera melhor a mentira bem falada do que a verdade mal dita. Prefere presidentes que mentem de gravata e falam em valores universais enquanto enterram países inteiros, do que um que admite, sem rodeios, que a guerra também é um negócio.
No fim, para quem vive debaixo dos escombros, não há diferença entre a bomba humanitária e a bomba petrolífera. Ambas matam com igual eficiência. A única distinção está no discurso do funeral — e na facilidade com que o mundo aplaude quando a morte vem acompanhada de frases bonitas.