
Houve um ataque. Houve um sequestro. Houve, como sempre acontece quando a realidade se cansa da ficção, um excesso de versões e uma escassez de verdade. O alvo: Nicolás Maduro. O cenário: a Venezuela chavista, esse laboratório político onde a democracia entrou em experiência e nunca mais saiu viva.
Convém começar pelo óbvio — porque, em tempos de propaganda, o óbvio precisa de ser dito com voz firme. O regime chavista é uma ditadura. Não um “modelo alternativo”, não uma “democracia com especificidades tropicais”, não uma “resistência anti-imperial”. Ditadura, ponto final. Persegue opositores, prende jornalistas, expulsa vozes críticas, manipula eleições e banaliza a morte como instrumento de governo. O chavismo não caiu do céu: construiu-se com culto da personalidade, petróleo maldito e uma narrativa heroica que já não convence nem os fantasmas de Hugo Chávez.
Condenar este regime não é alinhar com ninguém; é alinhar com princípios mínimos de civilização política. Quem relativiza o chavismo relativiza a liberdade — e fá-lo geralmente a partir de um sofá confortável, longe de Caracas, longe da fila para pão, longe do medo.
Mas eis que entra em cena o outro ator, sempre pontual quando o mundo começa a acreditar que talvez, só talvez, o direito internacional ainda signifique alguma coisa: os Estados Unidos. Ao ressuscitar, sem pudor, a Doutrina Monroe, Washington decide que o hemisfério ocidental voltou a ser quintal. Não jardim — quintal. Com cerca, dono e aviso à porta: “não se metam”.
É aqui que o discurso começa a apodrecer. Porque ao agir fora do quadro do multilateralismo, ao atropelar os frágeis consensos construídos depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA fazem algo mais grave do que combater uma ditadura: enterram a ideia de regras comuns. E quando as regras comuns morrem, o mundo não fica mais seguro — fica mais arbitrário. Hoje é Caracas, amanhã é outro ponto qualquer do mapa, escolhido conforme a conveniência estratégica do momento.
Dois erros não fazem um acerto. Uma ditadura não legitima uma intervenção unilateral. Um autocrata não transforma automaticamente o outro em salvador. A política internacional não é uma equação moral simples; é um terreno onde os atalhos costumam acabar em desastres longos.
E o futuro? O futuro, dizem-nos os estrategas, chama-se contenção da China, reposicionamento militar, zonas de influência bem delimitadas e paciência zero para experiências políticas que não passem pelo crivo de Washington. O multilateralismo fica para os discursos; a força, para a prática. A nova geoestratégia americana é clara: menos ONU, mais músculo; menos negociação, mais dissuasão; menos universalismo, mais interesse nacional nu e cru.
Agora, alguém numa ilha do Atlântico — digamos, Cabo Verde — pode olhar para isto tudo e encolher os ombros. “Nada a ver connosco”, dirá. Não temos petróleo, não temos mísseis, não temos chavismo nem Monroe. Somos pequenos, pacíficos e, em princípio, irrelevantes. E muito amigos dos EUA, mesmo sabendo que o cemitério está cheio de amigos dos EUA.
É aqui que a ironia se fecha como uma armadilha. Porque quando o direito internacional enfraquece, os pequenos perdem primeiro. Quando as regras deixam de valer, quem não tem força passa a ter apenas silêncio. E quando as grandes potências decidem que o mundo voltou a ser um tabuleiro, as ilhas — sobretudo as do Atlântico — deixam de ser periferia e passam a ser peças.
Hoje, a Venezuela. Amanhã, qualquer lugar onde alguém ache que “não tem nada a ver”. A história tem esse mau hábito: começa longe, fala alto e acaba por bater à porta errada.
Eduino Santos