Economia Azul aponta Cabo Verde para autossuficiência energética e nova era de inovação sustentável

18/12/2025 14:51 - Modificado em 18/12/2025 14:51

Cabo Verde pode alcançar a autossuficiência energética total e transformar desafios ambientais em oportunidades económicas concretas. Esta é uma das principais conclusões da missão do Projeto Economia Azul, desenvolvida no âmbito do Acordo de Parceria entre a ENAPOR – Portos de Cabo Verde e a Blue Innovation, liderada pelo Professor Gunter Pauli, fundador do conceito de Economia Azul e referência mundial em inovação sustentável.

A missão, que decorre esta semana, integra o projeto “Carteira de Oportunidades para as Ilhas de Cabo Verde”, assinado com a ENAPOR a 4 de novembro do corrente ano, e contempla visitas técnicas e institucionais às ilhas do Sal, São Vicente, Santiago, Fogo e Boa Vista.

O objetivo central do projeto é envolver todas as ilhas do arquipélago numa estrutura de cooperação capaz de identificar e desenvolver um portfólio de oportunidades sustentáveis, promovendo a inovação, o crescimento económico e o equilíbrio ambiental, alinhados com os princípios da Economia Azul.

Em São Vicente, a agenda inclui a visita ao Porto de Cruzeiros do Mindelo, encontros institucionais com destaque para uma reunião com o Ministro do Mar, bem como visitas técnicas a projetos de inovação ambiental, como experiências de produção de biogás, a ETAR/Lixeira do Mindelo e uma fazenda experimental.

Segundo o Professor Gunter Pauli, os estudos preliminares realizados pela equipa revelam um enorme potencial energético, especialmente no aproveitamento do vento. “Os melhores sites de vento para a Caixa estão em Santo Antão. Identificámos regiões de qualidade extraordinária que podem voltar a produzir energia. Só com o potencial da ilha de São Vicente, falamos de cerca de 17 megawatts de energia eólica a alturas entre 200 e 400 metros”, afirmou.

Pauli sublinha que, com base nas três ilhas já analisadas, Cabo Verde pode alcançar não apenas 50%, mas 100% de autossuficiência energética, com possibilidade de exportação. “Isso muda completamente a lógica económica do país”, frisou.

Outro eixo estratégico identificado é a gestão de resíduos, encarada como uma oportunidade e não como um problema. “A água negra é uma água rica em nutrientes. Temos uma equipa do Brasil que transformou o estado do Paraná num centro de produção de biogás. Aqui, o potencial é semelhante”, explicou.

A produção de biogás, além de gerar energia, permite obter fertilizantes essenciais para a recuperação dos solos agrícolas. “Cabo Verde precisa de nutrientes para a terra. E a terra precisa de carvão, que pode ser produzido a partir do lixo, incluindo o lixo orgânico dos cruzeiros”, destacou.

De acordo com o especialista, o resíduo do biogás gera dois subprodutos fundamentais: água e fertilizante, elementos-chave para impulsionar uma agricultura sustentável e produtiva. Nesse sentido, Pauli defende que hotéis e grandes unidades turísticas devem transformar a gestão de resíduos numa gestão integrada de produção de biogás, reduzindo a dependência externa e fortalecendo a economia local.

Na ilha do Sal, a equipa identificou cerca de 65 hectares com potencial para a produção de peixe e camarão, criando condições para que Cabo Verde se torne um centro regional de produção aquícola. Já na zona norte da ilha, nas proximidades do Olho Azul, foram mapeados cerca de 100 hectares destinados à produção de alimentos, com potencial de gerar aproximadamente 1.200 empregos diretos, substituindo a importação de frutas e legumes.

A missão prossegue com visitas às ilhas do Fogo e da Boa Vista, reforçando a ambição de cobrir todo o território nacional. “Vamos visitar todas as ilhas de Cabo Verde para identificar, em cada uma, as grandes oportunidades. Todo investimento precisa de fluxo de caixa. Se há cash flow, há investimento”, concluiu Gunter Pauli.

O projeto Economia Azul surge, assim, como uma proposta concreta para transformar recursos naturais, resíduos e inovação em motores de desenvolvimento sustentável, colocando Cabo Verde no mapa global como referência em economia circular e azul.

NN

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