Opinião | Se um Governo já incomoda, imagine um Governo e a sua Sombra

24/11/2025 22:27 - Modificado em 24/11/2025 22:27

Por: Eduíno Santos

Esta segunda-feira, 24 de novembro de 2025, a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) resolveu presentear Cabo Verde com aquilo que anuncia como a grande novidade dos últimos 50 anos de democracia: um Governo-Sombra. Sim, leu bem.

Não bastava termos um Governo que, por si só, já nos dá trabalho mais do que suficiente; agora ganhamos também uma sombra oficial, devidamente apresentada, estruturada e prometida como solução para os males do país.

Se um Governo incomoda muita gente… Imagine um Governo e a sua Sombra. Não será pedir demasiado ao espírito e à paciência do povo cabo-verdiano? Um país pequeno… mas com ambições de gigante
Cabo Verde é conhecido pela criatividade.

Exportamos música, morabeza, beleza natural e, de vez em quando, umas ideias políticas recicladas com cheiro a naftalina. A UCID decidiu ir buscar uma tradição britânica, velhinha, batida e já abandonada por
meio mundo: o tal do Governo-Sombra.

Lá fora, onde foi inventado, o Governo-Sombra serve para treinar o partido que vai governar quando o outro cair. Aqui, porém, temos um pequeno detalhe que o PAICV não deve ter gostado nada pois a UCID não está exatamente na fila da sucessão ao Governo que lhe pertence. Assim, a posição da UCID com o seu Governo/ Sombra é um bocadinho como treinar para ser piloto da NASA enquanto ainda estamos a lutar para tirar carta de condução na Escola de Condução da Achada Grande.

Inovação? Só se for no marketing. Segundo a UCID, o Governo-Sombra vem para:
 fiscalizar o Governo,
 propor políticas públicas,
 preparar quadros para o futuro.

Tudo ótimos objetivos. Pena é que deputados já existem para fiscalizar, propostas qualquer partido pode fazer, e quadros para o futuro qualquer juventude partidária já tenta formar — com mais selfies do que conteúdo, é verdade, mas ainda assim…existe. No fundo, a novidade parece ser mais de nomenclatura do que de função.

Dão-lhe o nome inglês, importam a pompa da Westminster, embrulham em papel dourado… e voilá: parece novo. Só parece.

O Governo-Sombra: agora com tudo a que tem direito O anúncio é grandioso: académicos, técnicos especializados, ligações a think tanks, consultoras internacionais… quase dava para acreditar que estamos perante um mini Banco Mundial instalado na sede da UCID.

Mas convém lembrar: até o Governo verdadeiro tem dificuldades em aplicar políticas “modernas, tecnológicas, eficazes e alinhadas com os desafios do país”.

Agora imaginem a sombra do Governo a tentar fazer o mesmo, sem orçamento, sem autoridade e sem acesso a informação confidencial. É mais ou menos como pedir a alguém para arrumar uma casa onde não tem chave para entrar.

E o povo no meio disto tudo? O povo cabo-verdiano, sempre paciente, já aguenta:
 Governo,
 Oposição,
 Promessas de uns,
 Desculpas dos outros,
 E uma lista de prioridades que muda conforme o vento, o mar ou a cor do
partido.

Agora ainda ganha um governo paralelo, que promete governar “quando Cabo Verde assim o decidir”.

Mas, cá entre nós, que ninguém nos lê: Cabo Verde tem decidido muitas coisas… mas nunca decidiram chamar a UCID para governar. E a culpa não é do povo — é das urnas, que, coitadinhas, só sabem receber votos que nunca levaram a UCID ao Governo.

Entre sombras e luzes

A verdade é que a ideia faria sentido…
…se a UCID fosse grande oposição nacional,
…se estivesse prestes a chegar ao poder,
…se o modelo tivesse funcionado noutros países semelhantes,
…ou se vivêssemos num universo paralelo.

Aqui, corre o risco de ser apenas mais um figurino político, útil para conferências de imprensa, fotos de grupo e declarações inflamadas sobre “alternativas credíveis”. Mas talvez seja isso mesmo o objetivo. Talvez o país precise de mais imaginação.

Talvez o Governo-Sombra venha animar o debate político — nem que seja como motivo de anedota.
Porque de uma coisa podemos ter certeza: Se um Governo incomoda muita gente… um Governo e a sua Sombra podem ser demais até para Cabo Verde.

Por: Eduíno Santos

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