Editorial / “O Pai Natal dos Avais”

20/11/2025 10:50 - Modificado em 20/11/2025 11:37

Por: Eduíno Santos

Escudos cabo-verdianos

Pelos vistos, este ano o Pai Natal chegou mais cedo a Cabo Verde. Não de trenó – talvez numa viatura do Ministério das Finanças – mas com o saco cheio de prendas muito especiais: avales bancários. E que prendas! Daquelas que não cabem debaixo de árvore nenhuma, porque vêm embrulhadas em milhões de escudos, carimbos oficiais e aquela magia natalícia que só o Estado é capaz de produzir quando quer fazer de fiador… com o dinheiro de todos nós.

Primeira prenda: 275,6 milhões para a Maseyka

O bom velhinho começou por parar na Laginha, onde o Four Points by Sheraton ainda tenta renascer dos estragos deixados pela onda tropical de Erin. Pois bem, o Governo decidiu vestir-se de Pai Natal e oferecer à empresa Maseyka Holdings Investments, S.A. – estrangeira, note-se – um aval de 275 milhões de escudos para garantir o empréstimo que permitirá terminar o hotel de cinco estrelas.

Diz o Governo que o empreendimento é “estruturante”, que vai reforçar o turismo, que é tudo muito bonito e muito estratégico. É verdade que São Vicente precisa de hotéis decentes para competir no mercado turístico. Mas não deixa de ser… curioso. Estranho, até.

Porque é justamente quando o país tem dois concelhos sob estado de calamidade, com pessoas que perderam tudo, infraestruturas públicas destruídas e municípios a esticar tostões para acudir às necessidades reais, que o Estado decide que o seu papel prioritário é ser fiador de luxo de uma empresa privada estrangeira.

É para isto que serve ser Estado? Para garantir que o hotel cinco estrelas abre a tempo de cortar a fita antes das próximas eleições? Ou é para garantir dignidade às pessoas que estão hoje a viver na incerteza?

Mas enfim. O Pai Natal é assim: às vezes entrega presentes a quem já tem lareira acesa.

A segunda prenda: mais de 515 milhões para a TACV

E como Natal sem exagero não é Natal, segue o Governo para a segunda ronda: mais de 515 milhões de escudos em aval para a TACV renegociar dois empréstimos.

A TACV – essa companhia aérea que já não voa pela lógica, mas sim por fé, esperança e um amor inexplicável de quem está no Governo. Porque vejamos: cada vez que se fala em TACV, ouve-se falar em “reestruturação”, “plano”, “interim business plan”, “estabilização”… Mas resultados? Bilhetes baratos? Rota regular que funcione? Frotas consistentes? Nem sinal.

A verdade é mais simples e menos poética: A TACV é um sorvedouro de recursos. Um saco sem fundo. Uma vaca magra que o Estado insiste em tentar ordenhar.

O Governo diz que a companhia é essencial para a conectividade. Certo. Mas essencial também é a saúde, a segurança, a agricultura, a água, a habitação – e não vemos por aí avales milionários a cair como maná. Quando se trata da TACV, porém, há sempre um cheque em branco pronto a ser assinado.

O grande mistério deste Natal político

No fundo, a questão é simples:

Por que razão o Governo se transforma num Pai Natal tão generoso quando se trata de empresas privadas – algumas estrangeiras – e de uma companhia aérea cronicamente deficitária, mas tão tímido quando se trata de acudir as calamidades reais que vivem no país?

Onde está o equilíbrio?
Onde está a transparência?
Onde está a prioridade?

Porque, sejamos sinceros: aval não é só um papel. É uma responsabilidade que recai sobre nós, contribuintes. Se o hotel não pagar, quem paga? Se a TACV continuar na sua lógica de voar para dentro do redondo da dívida, quem vai cobrir o rombo?

Dizer que isto é política de desenvolvimento é bonito. Mas às vezes parece mais política de faz-de-conta.

Conclusão: um Natal diferente?

Enquanto o Governo distribui avales como se fossem bombons, São Vicente continua com bairros que não se reergueram desde as enxurradas, famílias desalojadas, pequenos empresários sem apoio e dois concelhos de Cabo Verde em estado de calamidade.

É uma prenda envenenada este tipo de Natal financeiro.
E, no meio de tudo isso, fica a pergunta que São Vicente – e Cabo Verde inteiro – devia fazer em voz alta:

Quem é que o Pai Natal do Governo está realmente a presentear?
E quem é que fica apenas a olhar para a árvore, sem nada lá em baixo?

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