
Por Eduíno Santos
Há discursos que dizem mais pelo subtexto do que pelas palavras. O do primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, ao apresentar o orçamento, é um desses momentos em que o Governo procura marcar posição, justificar o presente e moldar a narrativa do futuro. Num país onde os recursos são sempre curtos e as expectativas sempre longas, Ulisses assume o óbvio: temos menos. Mas tenta transformar esse “menos” na bandeira de um “mais” — mais eficiência, mais rigor, mais foco. Mais dinheiro no bolso ? -perguntará o cidadão comum com alguma legitimidade
Quando afirma que o Executivo está a “corrigir o que ficou por fazer”, o primeiro-ministro não foge à realidade. Reconhece que houve falhas, atrasos, prioridades mal alinhadas. No entanto, apresenta-se como o capitão que encontrou o navio com infiltrações, mas que garante estar a tapar cada fissura. É uma mensagem pensada, sobretudo, para um país cansado de promessas adiadas e de obras que nunca chegam a tempo da vida das pessoas.
Ulisses joga forte na confiança: na economia que diz estar a recuperar, na justiça social que garante estar a consolidar, no futuro que afirma ser mais sólido do que parece. É um discurso que pede crédito político, num momento em que a população exige resultados palpáveis. Falar de justiça social em Cabo Verde é sempre sensível — significa assumir desigualdades profundas e, ao mesmo tempo, mostrar disposição para enfrentá-las. O Governo tenta equilibrar o discurso da eficiência com o da inclusão, para não parecer tecnocrático nem insensível.
Mas é na frase repetida, quase em tom de mantra — “somos diferentes, queremos ser diferentes e vamos continuar a fazer diferente” — que Ulisses cristaliza a intenção política deste orçamento. Ele quer a diferença não apenas como promessa, mas como identidade. Pretende afastar-se do passado, marcar distância da oposição e fixar no imaginário colectivo a ideia de que governa com outra postura: responsabilidade, transparência e compromisso. Três palavras fortes, mas que só ganham peso quando se transformam em prática.
O Governo apresenta um orçamento que pretende ser a bússola da estabilidade, mas continua a enfrentar o mesmo julgamento de sempre — o da rua, o do bolso das famílias, o do quotidiano dos cabo-verdianos. O discurso de Ulisses é seguro, medido e estrategicamente montado. Resta saber se o país sente a diferença que o primeiro-ministro proclama ou se continua à espera dela.
Porque, no fim do dia, Cabo Verde não vive de declarações: vive de resultados. E é aí, e só aí, que se mede a verdadeira eficácia de qualquer governo que diga querer fazer “diferente”.
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