EDITORIAL / A Oposição Cabo-Verdiana e o Prazer da Desgraça Nacional

3/11/2025 18:34 - Modificado em 3/11/2025 18:34

Por Eduíno Santos


Há um traço constante na história política de Cabo Verde desde a chegada do multipartidarismo em 1991: a dificuldade da oposição em reconhecer quando o governo acerta. A crítica é saudável e essencial à democracia. Mas o problema surge quando ela se transforma num vício — uma necessidade visceral de falar mal, de torcer contra e de encontrar falhas até no sucesso.

No espaço de uma semana, tivemos dois exemplos paradigmáticos dessa atitude.
Primeiro, a chegada dos voos low cost, um marco que começa a democratizar o preço das viagens e a abrir novas oportunidades para o turismo e a mobilidade dos cabo-verdianos. Durante meses, a oposição não poupou críticas — dizia-se que era fantasia, propaganda, promessa vazia. Pois bem, os aviões chegaram, cheios, e com tarifas acessíveis.

O segundo exemplo foi a escala, no Porto Grande do Mindelo, do Mein Schiff, o maior navio de cruzeiros a visitar o país. Ironia das ironias: o mesmo Terminal de Cruzeiros que a oposição considerou um fiasco — porque, no dia da inauguração, um navio não conseguiu atracar — serviu agora de porta de entrada a milhares de turistas. O silêncio da oposição, perante este facto, foi ensurdecedor.

Há em certos sectores políticos um prazer quase mórbido quando as coisas correm mal, como se o fracasso do país validasse a sua razão de existir. É o velho espírito dos “Velhos do Restelo” que, em vez de contribuir para o avanço, se alimentam da nostalgia da estagnação. E o mais curioso é que esse comportamento é transversal: tanto o PAICV como o MpD partilham essa mesma forma de estar na oposição.

Isto talvez não surpreenda. Ambos os partidos nasceram da mesma matriz — o PAIGC — e herdaram, com ela, uma cultura política de confronto quase existencial, em que o adversário é tratado como inimigo e não como concorrente. Essa herança ideológica, de raiz marxista-leninista, moldou mentalidades e práticas que ainda hoje se refletem no modo como se faz política no arquipélago.

Num país pequeno como Cabo Verde, onde os desafios são enormes e os recursos escassos, esta forma de oposição é um luxo que já não podemos permitir. O país precisa de uma oposição crítica, sim, mas também construtiva; vigilante, mas capaz de reconhecer o mérito.

Precisamos menos de velhos do Restelo e mais de marinheiros dispostos a remar o barco para a frente.

Enquanto a oposição continuar a confundir o bem do país com o mal do governo, Cabo Verde continuará preso ao mesmo ciclo de ressentimentos e negações — um círculo vicioso onde a crítica substitui a visão e o país se perde no ruído estéril das palavras.

Porque criticar é fácil; ajudar a construir o futuro é que exige coragem.

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