
Por Eduino Santos
O vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Olavo Correia, voltou a falar com entusiasmo sobre a economia cabo-verdiana. Falou de estabilidade, de confiança, de reservas internacionais em níveis recorde, de inflação controlada e de um desemprego historicamente baixo. Em resumo, um país que estaria no caminho certo, resiliente e preparado para o futuro.
É um discurso bonito, tecnicamente coerente e politicamente conveniente. Mas será também realista?
A verdade é que há motivos para algum otimismo — não se pode negar. Cabo Verde conseguiu, nos últimos anos, manter uma inflação abaixo dos 2%, reduzir o défice orçamental e reforçar as reservas cambiais. O crescimento económico ronda os 5%, um desempenho respeitável num mundo em turbulência. Tudo isso é mérito de uma gestão orçamental prudente e de uma recuperação do turismo, motor principal da nossa economia.
Mas o problema é que a macroeconomia não enche o prato.
A estabilidade das contas públicas não tem o mesmo reflexo na vida das famílias. O custo de vida continua alto, os salários reais praticamente estagnados e o desemprego — ainda que em percentagem menor — continua a esconder o subemprego, a informalidade e a fuga silenciosa dos jovens qualificados para o estrangeiro.
A economia cabo-verdiana cresce, sim, mas cresce sobre a mesma base frágil de sempre: turismo, serviços e dependência externa. Falta indústria, falta produção interna, falta inovação. Falta, sobretudo, coragem política para romper com o ciclo de discursos e transformar estabilidade em desenvolvimento real.
Olavo Correia fala de uma economia “mais verde, mais azul, mais digital, mais inteligente”. O país aplaude a ambição, mas espera resultados concretos. Porque, por enquanto, o Cabo Verde “verde” ainda depende de combustíveis fósseis, o “azul” continua a ser uma promessa do mar nunca aproveitada, e o “digital” é mais slogan do que prática económica.
Há resiliência, sim — mas uma resiliência que se apoia num equilíbrio frágil, dependente da ajuda internacional, das remessas da diáspora e da chegada constante de turistas. É uma resiliência vulnerável, e não uma força estrutural.
O otimismo do ministro é compreensível — faz parte da função política inspirar confiança. Mas seria bom que esse otimismo não se transformasse em autoelogio disfarçado de progresso. Porque o verdadeiro desafio de Cabo Verde não é crescer 5%, é crescer com equidade, com emprego digno e com menos dependência do exterior.
Em resumo: o governo pode estar certo em celebrar a estabilidade, mas o povo ainda espera sentir o crescimento no bolso. E essa diferença entre discurso e realidade continua a ser o maior défice de Cabo Verde.
A estabilidade é o início — não o destino.