
O futuro do Carnaval de São Vicente está seriamente ameaçado. Os grupos oficiais anunciaram, esta quinta-feira, que não existem condições básicas e mínimas para preparar os desfiles oficiais de 2026, apontando falta de diálogo, incumprimento de promessas e ausência de apoios por parte da Câmara Municipal.
David Leite, porta-voz dos grupos e presidente do Samba Tropical, diz que esta decisão resulta de “uma intensa e aturada reflexão” dos dirigentes, que descrevem o momento como “o culminar de uma longa e penosa jornada, marcada por promessas não cumpridas e por um grito de socorro que não foi ouvido”.
Segundo os grupos, há mais de dez anos as direções enfrentam condições de trabalho “cada vez mais precárias e, em muitos casos, desumanas”. A falta de materiais, espaços adequados e apoio financeiro tem levado muitos dirigentes a recorrer a fundos pessoais e a donativos para garantir o mínimo necessário.
“O desgaste físico e emocional é imenso. A entrega voluntária que há décadas sustenta a maior manifestação cultural do país atingiu o seu ponto de saturação”, lamentou David Leite.
Apesar das dificuldades, o Carnaval de 2025 foi realizado “com sacrifício financeiro e emocional imenso”, mas terminou com os grupos “mergulhados em dívidas e completamente exaustos”.
Os grupos afirmam que, desde maio de 2025, têm tentado sem sucesso reunir com o presidente da Câmara Municipal de São Vicente para expor a situação e apresentar soluções.
“Foram enviados pedidos de reunião a 4 de junho, 15 e 18 de julho e, mais recentemente, a 2 de outubro. Nenhum obteve resposta”, revelou o porta-voz.
Com o Carnaval previsto para fevereiro, os preparativos já deveriam estar em andamento, nomeadamente nos estaleiros — estruturas essenciais para a produção do evento. No entanto, “o que existe é um absoluto e ensurdecedor silêncio por parte das entidades responsáveis”.
A situação foi ainda agravada pela tempestade Erin, que devastou São Vicente, causando perdas significativas em materiais e equipamentos dos grupos.
Os grupos recordam que tinham proposto quatro medidas essenciais para garantir a viabilidade do Carnaval 2026:
Sustentam que nenhuma das condições foi cumprida, e os grupos afirmam estar “sem estruturas, sem previsibilidade orçamental e com dívidas acumuladas”.
David Leite sublinha que o comunicado representa a posição conjunta da maioria dos grupos oficiais, reunidos no conselho dos grupos desde maio.
“A continuidade do Carnaval depende do cumprimento destas condições básicas. Este é um clamoroso grito de alerta para sacudir consciências e salvar o Carnaval de São Vicente”, afirmou.
Questionado sobre contactos com o Ministério da Cultura e Indústrias Criativas, o porta-voz admitiu que existem apenas “diálogos informais” e “intenção de apoio”, mas sem confirmações concretas.
Sobre o impacto económico da eventual ausência dos desfiles oficiais, David Leite reconheceu a inexistência de estudos, mas destacou a importância do evento para a economia local e a projeção internacional da ilha.
“O Carnaval de São Vicente é reconhecido entre os maiores do mundo. Mas não cabe aos grupos elaborar estudos ou garantir a sustentabilidade sozinhos. Cada parte tem de cumprir o seu papel, e neste momento a balança caiu”, alertou.
Leite concluiu afirmando que os grupos não estão dispostos a repetir o sacrifício de 2025:
“Não faz sentido terminar o Carnaval mergulhados em dívidas e iniciar outro como se nada tivesse acontecido. Não seria sério nem responsável.”
Assim, sem diálogo, sem estaleiros e sem garantias financeiras, o Carnaval de São Vicente de 2026 está em risco de não ter desfiles oficiais.
NN