
Cabo Verde vive dias de pura euforia. Nas ruas, nos cafés, nas redes sociais e nas conversas de esquina, há um só tema: o jogo da próxima segunda-feira. A seleção nacional, os nossos Tubarões Azuis, está a um passo de fazer história e carimbar, pela primeira vez, o passaporte para a fase final de um Campeonato do Mundo de futebol. Uma vitória diante do último classificado do grupo ou fazer o mesmo resultado dos Camarões bastará para realizar um sonho que há muito parecia distante e impossível, mas que hoje está ao alcance das nossas mãos, melhor dizendo: dos nossos pés e mãos do Vozinha
Mas é precisamente neste momento que o país precisa respirar fundo e lembrar-se de uma velha verdade do futebol: a crença move multidões, mas é a competência que ganha jogos.
O futebol tem a sua lógica cruel — e também a sua ironia. Quantas vezes já vimos o “Golias” cair diante de um “David”? Logo nós que bem conhecemos o que é estar no papel de David.
Quantas seleções favoritas tropeçaram quando todos davam a vitória como certa? É por isso que este jogo, aparentemente fácil, deve ser encarado com o respeito que a bola exige.O no futebol o desrespeito pelo jogo da bola e as suas máximas pode ser a ” morte do artista”
O último classificado pode estar ferido, mas também não tem nada a perder. E quando não há nada a perder, há sempre perigo.
A seleção cabo-verdiana chega a esta fase com mérito, com organização e talento. Jogadores espalhados pelo mundo trouxeram experiência e maturidade. O treinador montou uma equipa sólida, combativa, com identidade e garra. Mas para que a história seja escrita com letras douradas, é preciso que na segunda-feira haja concentração total — sem nervos, sem euforia desmedida, sem distrações.
Há, no entanto, uma sombra que paira sobre esta caminhada e que não pode ser ignorada: a arbitragem africana. Cabo Verde, por vezes, sente-se sozinho dentro da sua própria casa continental. Há quem, em certas latitudes africanas, ainda olhe para os cabo-verdianos com desconfiança — como se fôssemos menos africanos por termos o olhar virado também para o Atlântico, para a Europa, para o mundo. Essa perceção errada e injusta, infelizmente, pode refletir-se no campo, em decisões de arbitragem que, em jogos decisivos, podem pesar mais do que deveriam. Aliás tivemos um exemplo disso no jogo com a Líbia: um golo anulado por um fora de jogo inexistente
Por isso, a vigilância é necessária. A Federação deve estar atenta, a comunicação deve ser firme e diplomática, e o país deve mostrar que está unido, preparado e consciente de que a transparência e o respeito são tão importantes quanto o talento dos nossos jogadores.
Cabo Verde está a um passo do sonho, sim. Mas o sonho só se concretiza quando o apito final confirma aquilo que se conquistou dentro das quatro linhas. Até lá, celebremos com moderação, apoiemos com paixão e lembremo-nos de que o futebol, como a vida, não perdoa o excesso de confiança.
Se a vitória vier — e todos queremos que venha — será porque Cabo Verde acreditou, mas sobretudo porque jogou melhor. E aí, sim, o pequeno arquipélago do Atlântico poderá gritar ao mundo: estamos entre os grandes, e chegámos lá com mérito.
— Eduino Santos