
Por Eduino Santos
Quase sessenta dias depois das cheias de 11 de Agosto, São Vicente continua à espera de ver um plano transparente que mostre onde estão, e como estão a ser aplicados, os apoios nacionais e internacionais prometidos. A população sente que as medidas ficaram apenas no campo da emergência.
Passaram-se quase dois meses desde que a chuva paralisou a ilha, destruiu casas e deixou centenas de famílias desalojadas. Desde então, o Governo multiplicou resoluções, promessas e comunicados sobre “respostas imediatas” e “planos de recuperação”. Mas, na prática, o que se vê é pouco mais do que paliativos e silêncio.
As ruas continuam feridas, os bairros mais vulneráveis ainda esperam reabilitação, e muitos desalojados vivem em espaços improvisados. Enquanto isso, ninguém consegue apontar — com clareza — onde está o dinheiro da ajuda que foi anunciada com tanto alarde.
Segundo dados oficiais e internacionais, Cabo Verde recebeu ou mobilizou cerca de 2,6 milhões de euros para apoiar São Vicente após as inundações. Dinheiro vindo do Estado, da Federação Internacional da Cruz Vermelha, da OMS e de organizações religiosas e humanitárias. O problema é que esse fluxo financeiro parece ter-se dissolvido na neblina burocrática — sem um relatório público, um plano de execução, ou sequer uma listagem de beneficiários.
O Governo, que tanto fala em transparência e boa governação, parece esquecer que a confiança também se constrói com prestação de contas. A população não quer discursos nem fotos em tempos de crise — quer resultados, quer saber como foi aplicado o dinheiro que chegou em seu nome.
Não se trata de suspeitar, mas de exigir respeito. O povo de São Vicente tem o direito de saber quem recebeu o quê, quando e para quê.
A emergência já passou. Agora é tempo de planeamento, reconstrução e, sobretudo, transparência. Porque se o Governo continuar a esconder as contas atrás de portas fechadas, corre o risco de transformar a solidariedade internacional num caso de desconfiança nacional.
No fim de contas, talvez o verdadeiro dilúvio não tenha sido o de agosto — tenha sido o de promessas sem execução e de apoios que, até agora, ninguém viu.