
A proliferação das chamadas casas de lata ou tambor em São Vicente é um dos fenómenos sociais mais persistentes da ilha. O Notícias do Norte tem acompanhado esta realidade ao longo dos anos, registando desde demolições forçadas, atritos entre autoridades, riscos ambientais e de segurança, até promessas de erradicação por parte do Governo e da Câmara Municipal.
Em outubro de 2012, o NN noticiava operações de demolição de construções clandestinas em bairros como Monte Sossego levadas a cabo pela Câmara Municipal de São Vicente (CMSV). As ações, acompanhadas pela Polícia Nacional, geraram tensão entre moradores que, sem alternativas habitacionais, viam as suas casas cair ao chão.
No mesmo ano, o jornal revelou ainda o negócio clandestino do aluguer de casas de lata. Havia quem construísse barracas apenas para as arrendar, criando um mercado paralelo com rendas na ordem dos 2.500 escudos. Para muitas famílias, sem condições de pagar uma habitação formal, esta era a única alternativa. Com o tempo o preço aumentou, devido a procura.
Já em 2013, o processo de demolição das casas de lata agravou-se. A PN passou a impedir demolições sempre que os residentes permaneciam dentro das habitações, invocando a Constituição que exige ordem judicial para despejos. Os fiscais da CMSV acusavam a polícia de “retirar autoridade” ao município e estimular novas construções ilegais.
Paralelamente às disputas institucionais, cresciam as preocupações com a vulnerabilidade destas moradias. Reportagens do NN em 2013 e 2015 apontavam para riscos sérios: incêndios provocados por velas, curto-circuitos ou botijas de gás, além da ameaça constante de chuvas e tempestades.
Bombeiros e autoridades locais alertavam que, em caso de catástrofe, seria praticamente impossível socorrer os moradores, especialmente nas encostas de bairros como Monte Sossego e Cruz de Papa, e também nas zonas com Ribeira de Craquinha, Pedra Rolada, entre outros. Com casos de relatos de mortes de pessoas devido a incêndios nestas moradias.
Em 2012, o presidente da CMSV, Augusto Neves, afirmava que a sua “meta final era acabar com as casas de lata”, destacando projetos de habitação social e reabilitação de casas degradadas.
Cinco anos depois, em 2017, a Ministra das Infraestruturas, Eunice Silva, anunciou um projeto-piloto para transformar cerca de mil casas de lata em bairros planeados, com apoio de financiadores internacionais. Os moradores receberam a notícia com esperança, mas também desconfiança, lembrando o fracasso de programas anteriores como o “Casa para Todos” e que hoje é uma realidade no bairro da Portelinha em Ribeira de Craquinha.
Mesmo após demolições, muitas famílias insistem em reconstruir. Em 2018, o NN relatou a história de João (nome fictício), que viu a sua casa ser abatida mas, sem outra opção, decidiu erguer novamente uma habitação de tambor noutro ponto da cidade. A sua frase resume a realidade de muitos:
“Acho que as pessoas só querem viver da melhor forma, não importa como, desde que possam conviver em paz.”
Em 2024, o NN voltou a reportar o crescimento destas construções na periferia do Mindelo, apesar de todas as promessas feitas ao longo dos anos e com a criação das casas para todos, que nem sempre foram para os que mais precisavam, mas sim para quem tinha condições de ter uma renda.
Hoje é exactamente isso que vemos, as ditas “casas para todos” nem sempre foram para todos e mesmo os que beneficiavam deste projecto, mantinham nas encostas as casas, as quais eram alugadas para outras pessoas, dando continuidade a problemática social e habitacional da ilha, que a nível nacional, possui a maior percentagem de construções ilegais e de lata no país, conforme dados do Instituto Nacional de Estatística.
A história das casas de lata em São Vicente é feita de avanços e recuos, promessas e frustrações. Para as famílias que vivem nestas condições, trata-se de uma questão de sobrevivência. Para as autoridades, um problema urbanístico, social e de segurança pública ainda sem resposta definitiva.
NN