Morre Kiki Lima aos 72 anos em Portugal: artista plástico cabo-verdiano deixa legado de cores, música e identidade cultural

20/07/2025 13:42 - Modificado em 20/07/2025 13:48
Foto: Benvindo Do Rosário

Faleceu esta manhã, 20 de julho 2025, em Portugal, o artista plástico, músico e compositor cabo-verdiano Kiki Lima, aos 72 anos, vítima de uma doença prolongada. Natural da ilha de Santo Antão, Euclides Eustáquio Lima, mais conhecido como Kiki Lima, estava em tratamento médico no país onde viveu por mais de duas décadas e construiu parte significativa da sua carreira artística.

O artista resistia há dois anos à doença que o debilitava, chegando a apresentar sinais de melhoria. No entanto, a notícia do seu falecimento apanhou de surpresa familiares, amigos e admiradores.

Licenciado em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Kiki Lima frequentou ainda cursos de Desenho e Pintura no CEC e de Escultura no Centro de Arte e Comunicação Visual, ambos na capital portuguesa. Pintor, escultor, designer, compositor e intérprete, iniciou o seu percurso nas artes plásticas em 1969 e tornou-se uma das figuras mais proeminentes da cultura cabo-verdiana.

Numa entrevista concedida em vida, Kiki Lima recordava com humor a decisão de abandonar o curso de Direito para se dedicar às artes:

“Era um domingo de Páscoa. Levantei-me às quatro da manhã para estudar a sebenta de Freitas do Amaral de Direito Administrativo. Às nove da manhã, tinha lido apenas quatro páginas. Fechei o livro, acordei a minha ex-mulher e disse: ‘Eu vou mudar de curso!’”

Apesar das críticas da época, a decisão abriu caminho para uma carreira marcada por mais de 200 exposições individuais e participação em mais de 160 mostras coletivas em vários países.

São muitas as mensagens nas redes sociais, com o também artista plástico Tchalé Figueira a lamentar a perda: “Há momentos em que as palavras não bastam para exprimir aquilo que nos vai na alma. Hoje faleceu Kiki Lima, pintor e compositor. O círculo de Kiki Lima hoje fechou, mas para Cabo Verde este artista deixa uma grande herança pictórica e musical que ficará na memória da nossa identidade”, escreveu.

Cabo Verde nas telas

A obra de Kiki Lima é reconhecida pelo uso vibrante das cores e pela pincelada gestual, retratando a alegria popular cabo-verdiana em cenas de rua, mercados e danças tradicionais. Influenciado pelo impressionismo e pelo expressionismo, o artista descrevia a sua pintura como um “expressionismo alegre”, contrastando com a conotação mais sombria do movimento.

“Eu resolvi mostrar que Cabo Verde não era violência, que era alegria, música, dança, uma forma de estar descontraída”, afirmou numa das suas entrevistas.

A ligação à identidade cultural do arquipélago era profunda. Influenciado pelo movimento literário Claridade e figuras como Baltasar Lopes da Silva e Manuel Lopes, com quem conviveu em Lisboa, Kiki Lima procurou traduzir para as telas o espírito de uma Cabo Verde independente e em busca de afirmação cultural.

Reconhecimento e legado

Ao longo da sua carreira, Kiki Lima recebeu diversas distinções, incluindo o 1.º Grau da Medalha de Mérito Cultural do Governo de Cabo Verde (2017), a Medalha do Vulcão de 1.ª Classe pelo Presidente da República de Cabo Verde e o Prémio Selo Morabeza (2015).

As suas obras integram coleções nacionais e internacionais e estão presentes em espaços públicos emblemáticos, como o frontispício do Pavilhão de Cabo Verde na Expo’98, em Lisboa, e a escultura “Receção de Emigrantes”, no Aeroporto Amílcar Cabral, na ilha do Sal.

Entre os colecionadores das suas peças destacam-se figuras como os ex-presidentes portugueses Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, o Rei de Espanha e Hillary Clinton.

Também músico e compositor, Kiki Lima integrou vários grupos musicais no Mindelo entre 1968 e 1974 e gravou dois álbuns em Portugal: “Tchuva” e “Midj Má Tambor”.

Em 2004, regressou definitivamente a Cabo Verde, apesar de manter uma forte ligação a Portugal. No seu regresso, abriu o atelier KIATEL – Artes Plásticas e Design – e, anos antes, fundara a Galeria KiTraço em Sassoeiros, Portugal. Em 2019, celebrou 50 anos de carreira com a exposição “50 anos de musicalidade pictórica”, no Palácio da Cultura Ildo Lobo.

Kiki Lima deixa um legado artístico de profunda ligação às raízes culturais cabo-verdianas, marcado pela cor, pelo movimento e pela capacidade de transmitir nas telas a alma de um povo.

NN

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