A Ilha do Maio: Entre a Sobrevivência e a Promessa do Turismo

14/07/2025 18:27 - Modificado em 14/07/2025 19:26

A ilha do Maio era a única ilha de Cabo Verde que nunca tinha ido. Vim agora, mas já conhecia a ilha e as suas ribeiras e aldeias dos relatos de amigos no programa de rádio ” No Ar” que fiz nos finais dos anos 90.

Foi com emoção que passei, por Ribeira de São João, Morrinho, Morro, Calheta, Figueira (dividida em Figueira da Horta e Figueira Seca), Ribeira Dom João, Pilão Cão, Alcatraz, Pedro Vaz, Praia Gonçalo, Santo António e Lagoa. e passado tantos anos saio do Maio convencido que as longas conversas nas noites do ” No Ar” eram mais animadoras e encantadoras do que a realidade que passados 28 anos vim encontrar. As minhas desculpas por ter vindo só agora e constatar que o isolamento que rompiam através da RCV se mantém.

A ilha do Maio, uma das mais tranquilas de Cabo Verde, tem uma história marcada pela resistência e adaptação. Enquanto outras ilhas, como Santiago e Sal, prosperaram com o comércio, a emigração ou o turismo massivo, o Maio permaneceu durante décadas à margem do desenvolvimento, mantendo um ritmo de vida simples e rural.

Sobrevivência num Contexto de Isolamento

Durante os anos 80, o Maio era uma ilha esquecida, onde a população vivia essencialmente da agricultura de subsistência, da pesca artesanal e da criação de gado. A falta de infraestruturas básicas, como estradas pavimentadas, eletricidade estável e acesso à água potável, era uma realidade comum. Muitos maienses emigravam para outras ilhas ou para o estrangeiro em busca de melhores condições, deixando para trás uma comunidade envelhecida e com poucas perspetivas económicas.

Contraste com o Resto do Arquipélago

Enquanto o Sal e a Boa Vista se transformaram em polos turísticos internacionais, atraindo investimentos em resorts e infraestruturas modernas, o Maio continuou a depender de ajudas externas e de remessas dos emigrantes. A sua localização geográfica, longe das principais rotas aéreas e marítimas, contribuiu para este atraso. No entanto, essa mesma exclusão preservou a autenticidade da ilha, mantendo intactas as suas praias desertas, paisagens naturais e uma cultura tradicional pouco influenciada pelo turismo de massa.

O Futuro Radiante do Turismo: Promessa ou Realidade?

Nos últimos anos, o governo e investidores privados têm olhado para o Maio como a “última joia por explorar” de Cabo Verde. Projetos turísticos, como o desenvolvimento da zona do Morro e a construção de pequenos hotéis ecológicos, sugerem um futuro promissor. A ilha é cada vez mais procurada por turistas em busca de tranquilidade e natureza preservada.

No entanto, a pergunta que fica é: a vida dos maienses melhorou significativamente?

  • Algum progresso existe: há mais acesso à eletricidade (graças à energia solar e eólica), algumas estradas foram melhoradas e há mais empregos ligados ao turismo.
  • Mas as dificuldades persistem: muitos habitantes ainda enfrentam escassez de água, falta de oportunidades profissionais qualificadas e serviços de saúde limitados. O desenvolvimento é lento e desigual, concentrando-se nas zonas turísticas, enquanto as aldeias do interior continuam pobres.

Conclusão: Entre o Passado e o Futuro

A ilha do Maio está numa encruzilhada. Se, por um lado, o turismo traz esperança de crescimento, por outro, os maienses ainda vivem num limbo entre o estilo de vida dos anos 80 e as promessas de modernidade.

O grande desafio será garantir que o desenvolvimento beneficie a população local, preservando a identidade única da ilha. Caso contrário, o Maio poderá tornar-se mais um destino paradisíaco onde os habitantes continuam à espera de uma vida melhor.

EduÍno Santos

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