Cesária Évora: A Voz que elevou Cabo Verde no Mundo e mostrou que a pobreza não é uma fatalidade 

4/07/2025 16:51 - Modificado em 4/07/2025 21:18

Por Eduíno Santos

Cesária Évora entrevistada pelos jornalistas Eduíno Santos e Hernán Coloma em Março de 1988

A escolha entre os melhores é uma tarefa difícil para quem nestes 50 anos assistiu ao que se passou no país em cima do muro e ao sabor dos ventos soprados pelos comitês centrais dos partidos políticos. Para quem, como eu, habituado a ser crucificado por fazer escolhas públicas. 

Estou á vontade para escolher a Cesária  Évora como a figura que mais elevou Cabo Verde e contribui para  demonstrar  que a pobreza não é uma fatalidade nestes últimos 50 anos

Nos últimos 50 anos de história de Cabo Verde, nenhuma figura brilhou com tanta intensidade e ressonância global como Cesária Évora. Nascida na pobreza na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, a “Diva dos Pés Descalços” não apenas superou as adversidades de sua origem humilde, mas também tornou o nome de Cabo Verde conhecido em todos os cantos do planeta. 

Através da sua voz emotiva e das melodias profundas da morna e da coladeira, ela transformou-se num símbolo da identidade cabo-verdiana e num ícone da música mundial. 

Cesária cresceu num contexto de dificuldades, num arquipélago marcado pela escassez e pelo isolamento. No entanto, foi justamente essa realidade que moldou a sua arte, impregnando suas canções de “sodade” (saudade), resistência e beleza melancólica. Ela começou a cantar em bares locais, conquistando primeiro o coração dos cabo-verdianos, antes de, mais tarde, encantar o mundo. 

O seu grande reconhecimento internacional veio tardiamente, apenas na década de 1990, quando já passava dos 40 anos. O álbum “Miss Perfumado” (1992) projetou-a definitivamente no cenário global, com canções como “Sodade”, tornando-se hinos da diáspora e da cultura crioula. A partir daí, Cesária percorreu os palcos mais prestigiados do mundo, desde o Carnegie Hall em Nova York aos festivais europeus, sempre descalça – um gesto de homenagem às suas raízes e aos menos favorecidos. 

Além de levar a música cabo-verdiana a novos públicos, Cesária Évora tornou-se uma embaixadora informal da cultura do seu país. Ela mostrou que Cabo Verde, apesar de pequeno em tamanho, é gigante em talento e riqueza cultural. A sua trajetória inspirou gerações de artistas e colocou o arquipélago no mapa cultural mundial, algo que poucas personalidades conseguiram fazer. 

Mesmo após a sua morte em 2011, o legado de Cesária permanece vivo. Ela não foi apenas uma cantora, mas a personificação da alma cabo-verdiana – resistente, calorosa e cheia de “morabeza”. Por tudo isso, nos 50 anos de Cabo Verde como nação independente, Cesária Évora destaca-se como a figura mais marcante, a voz que, vinda da pobreza, ecoou pelo mundo e imortalizou o nome do seu país.

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