
Esta pergunta, que poderia ter sido feita com ceticismo há 50 anos, hoje ecoa como uma afirmação. Em 1975, quando as ilhas cabo-verdianas conquistaram a independência, o país herdou uma realidade desoladora: sem recursos naturais significativos, com secas cíclicas, uma economia frágil e uma população dispersa por um arquipélago árido.
Muitos duvidavam que Cabo Verde pudesse sequer sobreviver como nação soberana. E diziam que “Cabo Verde não tem nem condiçoes para ser dependente fará para ser independente”. *Mas o impossível tornou-se possível.*
E em 1989 num editorial no jornal “Noticias” lancei esta pergunta e respondi defendendo “sim! Cabo Verde é possivel !”
E levantei a questão por que pese os avanços conseguidos desde 1975 a 1989 e as prespectivas para futuro terem a marca do sucesso, na altura, legitimamente, e por que vivíamos na primavera e no canto do Cisne do partido único que insistia em esperar a queda do regime soviético em vez de avançar, no III Congresso do PAICV, com a abertura política que viria a acontecer em Fevereiro de 1990, se levantavam vozes de gente de bom critério a perguntar : “Cabo Verde é possível ….?”.
Isto perante a dimensão da obra que fica por fazer, uma vez que a esperança num futuro melhor são uma exigência constante do povo cabo verdiano determinado a mostrar ao mundo que a pobreza não era uma fatalidade, mesmo perante a dimensão hercúlea dos problemas por resolver.
Mesmo assim defendi que “Cabo Verde é possivel” mas “precisa-se mais uma vez de coragem, outra vez de audácia, outra vez de inteligência, de unidade, e de muito realismo”. E concluía que “tornar Cabo Verde possível” não é tarefa para fracos.
E as vezes há bons profetas na sua terra e hoje poucos duvidam que Cabo Verde é possível. Mas eu continuo a dizer “tornar Cabo Verde possível não é tarefa para fracos. Muito menos para “gargantudos” e os seus velhos do Restelo.
De “País que Não Tinha Condição” a “Exemplo de Resiliência”.
1. Da Fome à Segurança Alimentar
– Nas décadas de 1940-50, milhares morreram de fome. Hoje, Cabo Verde implementou sistemas de gestão hídrica, dessalinização e agricultura sustentável, reduzindo a dependência de ajuda externa.
2. Da Diáspora Forçada à Diáspora como Potência
– A emigração, antes sinal de desespero, transformou-se em rede global de apoio. As remessas e a dupla nacionalidade fortaleceram a economia e os laços culturais.
3. De “Território Sem Recursos” a Hub de Serviços
– Sem petróleo ou minérios, Cabo Verde investiu em turismo (como o boom de Sal e Boa Vista , e hoje Sao Vicente , Santo Antao , Maio ), **energias renováveis** (50% da eletricidade vem de fontes limpas) e serviços marítimos, tornando-se uma ponte entre continentes.
4. **Da Instabilidade Política à Democracia Estável**
– Um dos poucos países africanos sem golpes de Estado pós-independência, com eleições pacíficas e alternância de poder.
5. **Da “Fatalidade da Pobreza” ao Desenvolvimento Humano**
– Redução da pobreza extrema de 30% (1990) para menos de 10% (2024).
– Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em ascensão, acima da média africana.
O Que Tornou Cabo Verde Possível?
– Visão de Lideranças (como Amílcar Cabral , Pedro Pires, Carlos Veiga, José Maria Neves)
Investimento em Educação (literacia de 90%, universidades públicas e parcerias internacionais).
– Cultura como Alicerce (a música, a língua crioula e a identidade cabo-verdiana uniram o arquipélago).
Cooperação Internacional Inteligente (parcerias com UE, China e EUA sem perder soberania).
O Legado: Um Farol para o Mundo
Cabo Verde mostrou que **a pobreza não é uma fatalidade geográfica ou histórica**. Provou que um país pequeno, sem recursos naturais, pode vencer através da **criatividade, governança e coesão social**.
Hoje, a resposta é clara:
*”Cabo Verde não só é possível — é inspiração. Nos seus 50 anos, transformou o ‘não ter’ em motivo para criar, a escassez em oportunidade, e a diáspora em força global. Seu maior recurso sempre foi seu povo. E esse povo fez do impossível uma realidade.”*
Celebremos 50 anos de um país que redefiniu o que é ser possível e mostrou ao Mundo que a pobreza não é uma fatalidade
Eduino Santos