
Hakeem Jeffries, líder dos democratas na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, está prestes a fazer história. Depois da vitória do seu partido nas eleições intercalares de 3 de Novembro, poderá tornar-se o primeiro negro a presidir à Câmara dos Representantes.
Mas há um pormenor da sua história familiar que interessa particularmente a Cabo Verde: Jeffries é bisneto de Manuel Gomes, um emigrante natural da ilha do Fogo que partiu para os Estados Unidos em 1915. A ligação cabo-verdiana, que está a circular nas redes sociais, é verdadeira e foi confirmada pelo próprio congressista.
A vitória democrata nas eleições intercalares norte-americanas abriu as portas a uma mudança histórica na liderança do Congresso. Hakeem Jeffries, de 56 anos, nascido em Brooklyn, Nova Iorque, poderá substituir o republicano Mike Johnson na presidência da Câmara dos Representantes quando o novo Congresso tomar posse, em Janeiro de 2027.
Se for eleito pelos seus colegas, tornar-se-á o primeiro afro-americano a exercer o cargo, uma das mais importantes funções do sistema político dos Estados Unidos.
O presidente da Câmara dos Representantes ocupa o segundo lugar na linha de sucessão presidencial, imediatamente depois do vice-presidente. E esse homem, que poderá chegar a uma das mais altas posições do Estado norte-americano, tem raízes familiares na ilha do Fogo.
A ascendência cabo-verdiana de Hakeem Jeffries não é uma descoberta recente, embora esteja agora a ganhar grande visibilidade nas redes sociais.
A genealogista norte-americana Megan Smolenyak publicou, em Abril de 2024, uma investigação sobre as origens familiares do congressista, identificando o seu bisavô materno, Manuel Gomes, como emigrante natural da ilha do Fogo.
Manuel Gomes chegou a New Bedford, Massachusetts, em 1915, integrado numa das mais antigas correntes migratórias cabo-verdianas para os Estados Unidos.
Trabalhou em fábricas e nos caminhos-de-ferro, constituiu família, obteve a cidadania norte-americana e, anos mais tarde, regressou a Cabo Verde.
Morreu em São Filipe, na ilha do Fogo, em 1974, poucos meses antes da independência nacional.
O seu filho, Walter Pina Gomes, avô materno de Hakeem Jeffries, nasceu nos Estados Unidos e fez carreira nas Forças Armadas norte-americanas.
A filha de Walter, Laneda Gomes Jeffries, mãe do congressista, manteve essa ligação familiar à comunidade cabo-verdiana.
Há, portanto, uma precisão importante relativamente às informações divulgadas nas redes sociais: o emigrante Manuel Gomes, natural da ilha do Fogo, não era avô, mas bisavô de Hakeem Jeffries.
Jeffries nunca escondeu as raízes cabo-verdianas O próprio político democrata já falou publicamente da sua ascendência.
Numa entrevista concedida à rádio pública norte-americana NPR, em Julho de 2026, Jeffries identificou Manuel Gomes como seu bisavô e confirmou que tinha emigrado de Cabo Verde para New Bedford em 1915.
Mais recentemente, em Setembro, participou num encontro com a comunidade cabo-verdiana em Rhode Island, organizado pelos congressistas Gabe Amo e Seth Magaziner.
Num comunicado oficial divulgado a propósito desse encontro, Jeffries manifestou orgulho nas suas raízes cabo-verdianas e destacou os laços históricos entre Cabo Verde e a região de New England.
A mesma comunicação confirmou expressamente que a sua família tem origens na ilha do Fogo.
A relação de Hakeem Jeffries com Cabo Verde não se limita à genealogia.
Em Novembro de 2021, integrou a delegação presidencial norte-americana enviada por Joe Biden à tomada de posse do Presidente da República, José Maria Neves, na cidade da Praia.
Em Dezembro de 2022, recebeu em Washington o então primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, num encontro dedicado ao reforço da cooperação bilateral.
E, em Setembro de 2025, juntou-se ao senador Edward Markey para apresentar uma resolução no Congresso dos Estados Unidos assinalando os 50 anos da independência de Cabo Verde e reconhecendo o contributo da comunidade cabo-verdiana para a sociedade norte-americana.
Estes antecedentes mostram que Jeffries não é apenas um político com ascendência cabo-verdiana. É também uma figura que já participou activamente em iniciativas relacionadas com Cabo Verde e a sua diáspora.
Que significado poderá ter para Cabo Verde?
A eventual eleição de Hakeem Jeffries para presidente da Câmara dos Representantes terá, antes de tudo, uma dimensão histórica para os Estados Unidos.
Para Cabo Verde, acrescenta uma dimensão simbólica e potencialmente diplomática.
Um descendente de emigrantes cabo-verdianos passará a ocupar uma posição central no poder legislativo norte-americano, precisamente num momento em que as relações internacionais, as políticas de imigração e a cooperação com África enfrentam novos desafios.
Isso não significa que a sua ascendência se traduza automaticamente em benefícios políticos ou económicos para o arquipélago.
Mas significa que Cabo Verde terá, numa das instituições mais influentes de Washington, uma figura que conhece a história da sua diáspora e que já demonstrou interesse pelas relações entre os dois países.
Em 1915, Manuel Gomes deixou a ilha do Fogo em direcção aos Estados Unidos, seguindo o caminho de milhares de cabo-verdianos que procuravam melhores condições de vida do outro lado do Atlântico.
Mais de um século depois, o seu bisneto prepara-se para uma eleição que poderá colocá-lo entre as mais altas figuras do Estado norte-americano.
Manuel Gomes morreu em São Filipe, em 1974, sem chegar a conhecer Cabo Verde como país independente.
Também não chegou a conhecer o destino político que aguardava o bisneto, então com apenas quatro anos.
Da ilha do Fogo ao Capitólio de Washington passaram quatro gerações. Uma história de emigração cabo-verdiana que poderá agora escrever um novo capítulo na história política dos Estados Unidos.
Notícias do Norte — Internacional