Bíblia em crioulo cabo-verdiano enfrenta o desafio de unificar a língua sem apagar as variantes das ilhas

17/10/2026 15:08 - Modificado em 17/10/2026 15:09

Tradução entra numa nova fase de preparação técnica, com a criação de um vocabulário bíblico e instrumentos de uniformização linguística. A escolha da variante e das regras de escrita será determinante para garantir que o texto seja compreendido em todo o arquipélago.

O processo de tradução da Bíblia para o crioulo cabo-verdiano entrou numa nova fase, marcada pela preparação técnica, pela uniformização linguística e pela definição de critérios que permitam conciliar a fidelidade aos textos originais com a diversidade de variantes faladas nas ilhas. O projecto pretende disponibilizar uma versão das Escrituras compreensível para os cabo-verdianos, sem que a necessidade de criar uma referência escrita comum implique o apagamento das particularidades regionais.

Em declarações à Inforpress, no âmbito de um seminário que terminou esta semana, na cidade da Praia, o padre Ricardo Monteiro, membro da comissão de tradução, afirmou que, desde Janeiro deste ano, foram desenvolvidos instrumentos considerados fundamentais para o avanço dos trabalhos, nomeadamente um vocabulário bíblico e uma lista de palavras-chave das Escrituras, além de matrizes destinadas a orientar a uniformização do texto.

“O projecto está andando muito bem, graças a Deus. E este ano praticamente efetivamos o processo e estamos a avançar neste caminho. Tínhamos o projeto feito, mas agora já podemos dizer que temos um vocabulário, uma lista de palavras-chave da nossa escritura e também as matrizes de unificação do nosso trabalho”, afirmou.

A equipa encontra-se igualmente em formação para a utilização do Paratext, um programa especializado na tradução bíblica que permite organizar os textos, harmonizar o vocabulário, coordenar as tarefas e facilitar a colaboração entre tradutores e consultores. A ferramenta integra um processo de revisão que procura assegurar tanto a precisão dos significados como a naturalidade das expressões na língua de chegada.

Um dos principais desafios é precisamente a diversidade linguística do arquipélago. Embora o crioulo seja a língua materna da maioria dos cabo-verdianos, a sua expressão varia de ilha para ilha, tanto na pronúncia como no vocabulário, em determinadas construções gramaticais e nas formas de expressão quotidiana.

Para o director de consultoria em tradução da Seed Company, John Iseminger, será necessário encontrar soluções que respeitem o sentido dos textos originais, escritos em hebraico, aramaico e grego, recorrendo simultaneamente a expressões naturais e compreensíveis para os falantes do crioulo cabo-verdiano.

O projecto é promovido pela Escola Universitária Católica de Cabo Verde, em articulação com as dioceses de Santiago e do Mindelo, e conta com o apoio técnico da Seed Company. A iniciativa prevê a disponibilização de versões para consulta pública antes da edição final, enquadrada nas comemorações dos 500 anos da Diocese de Santiago, previstas para 2033.

Qual será o crioulo utilizado na tradução?

A escolha da variante linguística constitui uma das questões centrais do projecto. Até ao momento, a informação divulgada não identifica uma variante insular como base definitiva da tradução. O objectivo apresentado pela comissão é encontrar uma forma de expressão que possa ser compreendida pelo maior número possível de falantes, sem transformar a uniformização numa imposição de uma variante sobre as restantes.

A questão é particularmente relevante porque o crioulo de Santiago, o de São Vicente e as variantes das restantes ilhas apresentam diferenças que fazem parte da identidade linguística e cultural das respectivas comunidades. A opção por determinadas palavras ou construções poderá facilitar a leitura numa região e, simultaneamente, exigir explicações ou adaptações para leitores de outras ilhas.

O crioulo de Santiago e o de São Vicente são duas das variantes mais presentes no debate sobre a escrita e a padronização da língua cabo-verdiana. No entanto, não se deve confundir a importância histórica ou a visibilidade de uma variante com uma decisão já tomada pela equipa de tradução.

Em Cabo Verde, o Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano (ALUPEC) foi institucionalizado como instrumento de escrita da língua, respeitando as diferentes variantes do país. Contudo, a existência de um alfabeto comum não resolve, por si só, todas as questões relacionadas com a escolha do vocabulário, a grafia das palavras e a construção de um modelo escrito de referência.

Neste contexto, a uniformização do vocabulário bíblico poderá desempenhar um papel decisivo. A equipa terá de avaliar se determinadas palavras são suficientemente conhecidas em todo o arquipélago, se existem alternativas mais abrangentes e quando será necessário recorrer a sinónimos ou notas explicativas para esclarecer diferenças regionais.

Para Marciano Moreira, estudioso da língua materna e membro da comissão, a tradução poderá ter um impacto que ultrapassa a dimensão religiosa, contribuindo para a consolidação da escrita do crioulo e para a sua transmissão às novas gerações, num contexto em que a oralidade continua a desempenhar um papel central na preservação da língua.

Na sua perspectiva, padronizar não significa eliminar as variantes regionais, mas procurar uma forma de expressão acessível ao maior número de falantes. A utilização de notas explicativas e de sinónimos poderá ajudar a ultrapassar diferenças de vocabulário sem desvalorizar as formas linguísticas utilizadas nas diversas ilhas.

Uma tradução com impacto religioso e linguístico

A tradução da Bíblia poderá representar um contributo importante para a valorização do crioulo cabo-verdiano enquanto língua de leitura, reflexão e produção de conhecimento. Para além de permitir que os fiéis tenham acesso às Escrituras na sua língua materna, o projecto poderá estimular a produção de textos escritos, a discussão sobre as regras de escrita e a criação de referências terminológicas.

O desafio será garantir que a procura de uma linguagem comum não comprometa a compreensão do texto nem a diversidade linguística que caracteriza Cabo Verde. Para isso, a consulta pública e a participação de falantes de diferentes ilhas poderão ser fundamentais para testar as escolhas feitas pela equipa.

Mais do que decidir entre o crioulo de Santiago, o de São Vicente ou qualquer outra variante, o processo exige critérios transparentes para a escolha das palavras, das construções gramaticais e das convenções ortográficas. A definição desses critérios poderá determinar não apenas a acessibilidade da tradução bíblica, mas também a forma como o crioulo cabo-verdiano continuará a desenvolver-se enquanto língua escrita.

O projecto conta com uma equipa multidisciplinar que integra teólogos, linguistas e especialistas em grego bíblico e crioulo, com o objectivo de traduzir directamente das línguas originais para a língua cabo-verdiana. A disponibilização de versões para consulta pública deverá permitir avaliar a clareza do texto e recolher contributos antes da publicação definitiva.

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