
Há menos de quatro meses, o MpD deu uma pequena grande lição de democracia: perdeu as eleições legislativas, telefonou ao vencedor, deu-lhe os parabéns e preparou-se para entregar o poder. Hoje, o mesmo partido está a transformar a contagem de cerca de dez mil votos internos numa confusão de atas, números diferentes, suspeições, conferências de imprensa e comunicados a pedir serenidade. Alguma coisa não bate certo. E não são apenas as contas.
No dia 17 de Maio, Ulisses Correia e Silva não esperou por tribunais, recursos ou teorias conspirativas. Quando percebeu que o PAICV tinha vencido, telefonou a Francisco Carvalho, felicitou-o e reconheceu a derrota. Depois anunciou a saída da liderança do MpD e abriu caminho para uma transição normal do poder.
Foi um gesto simples. Mas são precisamente esses gestos simples que fazem uma democracia.
Sempre defendemos que a democracia cabo-verdiana se construiu talvez mais na forma como os vencidos aceitaram perder do que na maneira como os vencedores exerceram o poder depois de ganhar.
Porque ganhar é fácil. Difícil é perder.
Difícil é olhar para os números, perceber que o povo escolheu outro e dizer: está bem, amanhã continuamos.
Por isso custa perceber aquilo em que se está a transformar a eleição interna do MpD.
Estamos a falar de um partido que organizou eleições para escolher o seu presidente. Não estamos a contar milhões de votos espalhados por um continente. O próprio GAPE contabilizou até agora 8.058 votantes e apresentou Paulo Veiga com 3.867 votos, Herménio Fernandes com 3.512 e Luís Filipe Tavares com 679, deixando dezenas de mesas pendentes.
Era suposto ser simples.
Vota-se. Fecha-se a urna. Conta-se. Faz-se a ata. Somam-se as atas.
E no fim alguém ganha e alguém perde.
Mas o MpD conseguiu transformar uma soma que uma folha de Excel resolveria em poucos segundos numa espécie de crise constitucional doméstica.
Paulo Veiga diz ter atas que apresentam números diferentes e exige resultados mesa a mesa. O GAPE apresenta outros números. A presidência interina pede serenidade e sai em defesa da honorabilidade do GAPE.
E nós ficamos perante o extraordinário paradoxo de um partido que ajudou Cabo Verde a fazer a alternância democrática em 1991 estar agora com dificuldades para fazer a alternância dentro da própria casa.
O problema nem sequer é haver contestação. Contestar faz parte da democracia.
Se Paulo Veiga tem atas, deve apresentá-las. Se o GAPE tem outras, deve publicá-las. Se houve erro, corrige-se. Se não houve, explica-se.
A honra das pessoas não está em discussão.
As contas estão.
E números não se defendem com comunicados sobre a honorabilidade de quem os contou. Defendem-se com outros números.
Uma ata não tem sentimentos. Não fica ofendida. Não é de Paulo Veiga, de Herménio Fernandes ou de Eurico Monteiro.
Uma ata diz quantos votos estavam dentro da urna.
Ponto.
É precisamente aqui que regressa uma velha inquietação que sempre tivemos em relação ao MpD.
O MpD nasceu como ruptura com o regime de partido único e apresentou-se como instrumento da democracia liberal. A sua declaração política de 1990 marcou uma clara demarcação do ideário do PAICV de então.
Mas uma coisa é romper com uma organização. Outra, muito mais difícil, é romper completamente com uma cultura política.
E digo PAIGC, não PAICV.
O PAICV de hoje é um partido democrático, sujeito às urnas, que ganha e perde eleições. Quando falo de PAIGC, falo daquele velho caldo político do partido único, onde a instituição sabia melhor do que o militante, o aparelho sabia melhor do que a base e a verdade tinha de passar primeiro pelo gabinete antes de chegar à praça pública.
Alguns dos homens e correntes que participaram na construção da alternativa democrática fizeram também a sua aprendizagem política naquele ambiente ou em dissidências dele. A História política cabo-verdiana é mais cruzada do que as camisolas partidárias posteriores gostam de admitir.
Talvez por isso, de tempos a tempos, aparece nos partidos cabo-verdianos aquela tentação antiga: a ideia de que a instituição precisa proteger-se dos próprios militantes.
Não precisa.
O MpD tem neste momento uma oportunidade muito simples para demonstrar que a sua cultura democrática é maior do que as suas disputas internas.
Publiquem todas as atas.
Mesa por mesa.
Contem todos os votos.
Corrijam o que houver para corrigir.
E quando acabar, alguém dá os parabéns a quem ganhou.
Foi exatamente isso que o MpD ensinou ao país há menos de quatro meses quando perdeu o Governo.
Seria uma ironia amarga descobrir agora que o partido que soube perder umas eleições nacionais não consegue organizar sem bagunça uma eleição para escolher o presidente da própria casa.