Na posse dos novos dirigentes da Polícia Nacional, o primeiro-ministro colocou a paz e a segurança entre as novas “utopias” de Cabo Verde. Reconheceu problemas nos centros urbanos, pediu instituições menos fechadas sobre si próprias e deixou um princípio que agora também ficará sujeito ao teste da governação: “Não há desenvolvimento sem crítica.”

Cabo Verde tem dez ilhas, nove habitadas. Mas Francisco Carvalho descobriu outras. Estão na Administração Pública. Não aparecem nos mapas, não precisam de barcos e, aparentemente, comunicam entre si com dificuldades semelhantes às que os cabo-verdianos conhecem nas ligações interilhas.
Na tomada de posse dos novos dirigentes da Polícia Nacional, o primeiro-ministro defendeu que é preciso acabar com essas “imensas ilhas” institucionais e colocou a recuperação da paz e da segurança entre os grandes desafios do seu Governo.
Chamou-lhe uma “utopia”.
A utopia de voltar a andar em paz
Francisco Carvalho reconheceu aquilo que muitos cidadãos, sobretudo na Cidade da Praia, não precisam de relatórios para perceber: a sensação de segurança já não é a mesma.
O primeiro-ministro quer recuperar aquilo que descreveu como a “paz quase total” que Cabo Verde conheceu noutros tempos.
“Nós temos de ter, novamente, sim, aquela paz. Aquela paz quase total.”
É uma ambição difícil de contestar. O problema começa na passagem da utopia para a rua. Porque segurança não se recupera por decreto nem pela troca de dirigentes da Polícia Nacional. Exige prevenção, investigação criminal, justiça que responda em tempo útil, combate às armas e aos grupos violentos, políticas para juventude, escola, emprego e instituições capazes de partilhar informação.
Francisco Carvalho parece reconhecer isso quando pede uma abordagem “concertada”, “diária e permanente”. Mas a criminalidade, infelizmente, também trabalha todos os dias.
As outras ilhas de Cabo Verde
Talvez a imagem politicamente mais interessante do discurso tenha sido precisamente a das “ilhas” dentro da Administração Pública. É uma velha doença do Estado cabo-verdiano. Cada serviço com o seu território. Cada instituição com a sua informação.
Cada departamento com a sua pequena fronteira. E demasiadas vezes o cidadão é transformado no barco que transporta documentos de uma repartição para outra.
Francisco Carvalho promete mudar essa cultura. Será uma reforma menos vistosa do que inaugurar edifícios, mas provavelmente mais difícil.
É mais fácil construir uma nova repartição do que convencer duas repartições antigas a falarem uma com a outra.
“Não há desenvolvimento sem crítica”
Mas foi outra declaração do primeiro-ministro que merece ficar guardada.
Francisco Carvalho pediu aos novos responsáveis abertura para ouvir críticas, analisá-las e não condenar antecipadamente quem critica.
E resumiu: “Não há desenvolvimento sem crítica.”
É uma boa frase.
E pode vir a ser uma das mais importantes que Francisco Carvalho pronunciou desde que chegou ao Governo. Não apenas para a Polícia Nacional. Também para o próprio Governo. Porque todos os governos gostam da crítica quando estão na oposição. É quando chegam ao poder e descobrem jornalistas, sindicatos, oposição e cidadãos a praticá-la que começa o verdadeiro teste à tolerância.
O Notícias do Norte toma nota. Não por maldade. Por prevenção.
Da utopia para a esquadra
Francisco Carvalho colocou a fasquia onde deve estar: Cabo Verde precisa ambicionar novamente níveis elevados de segurança.
Mas a “paz quase total” pertence hoje mais à memória do que à experiência quotidiana de muitos cabo-verdianos. E recuperar essa confiança exigirá muito mais do que novas chefias. Os novos dirigentes da Polícia Nacional tomaram posse.
O Governo definiu a utopia. Agora começa a parte menos poética:
transformar a palavra “segurança” numa coisa que o cidadão consiga sentir quando fecha a porta de casa — ou quando decide não ter medo de a abrir.
NN