MpD procura um presidente para decidir quem quer ver no Plateau

23/08/2026 22:52 - Modificado em 23/08/2026 22:52

O partido escolhe a 6 de Setembro o sucessor de Ulisses Correia e Silva. Dez dias depois termina o prazo das candidaturas presidenciais. Joana Rosa já avançou, Janine Lélis e Hélio Sanches saíram da corrida e outros nomes procuram espaço. Antes de escolher o Presidente da República, o MpD precisa de descobrir quem manda no MpD.

Por: Eduíno Santos

O MpD tem dois problemas presidenciais. Um escreve-se com letra pequena: quem vai presidir ao partido? O outro com letra grande: quem quer o MpD ver como Presidente da República?

O calendário, sempre com aquele sentido de humor que a política aprecia pouco, resolveu juntar os dois.

A 6 de Setembro, os militantes escolhem entre Paulo Veiga, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares o sucessor de Ulisses Correia e Silva.

Dez dias depois, a 16 de Setembro, termina o prazo para apresentação das candidaturas presidenciais no Tribunal Constitucional.

Ou seja: quem ganhar as internas terá tempo para agradecer os votos, receber as chaves da sede e descobrir, provavelmente no mesmo molho, o dossier chamado Presidenciais.

Joana não ficou à espera da chave

Na família política do MpD, Joana Rosa resolveu o problema à sua maneira. Avançou.

A antiga ministra da Justiça anunciou a candidatura presidencial a 24 de Junho, apresentando-se como defensora de uma Presidência moderadora, conciliadora e equilibradora do sistema.

Há apenas uma pequena ironia no percurso.

Durante a campanha das legislativas de Maio, Joana Rosa defendia que “não há alternativa a Ulisses Correia e Silva”.

Os eleitores encontraram uma.

O MpD perdeu o Governo, Ulisses deixou a liderança e, pouco mais de um mês depois, Joana apresentou-se aos cabo-verdianos precisamente como alternativa para outro cargo.

São coisas da política.

Algumas certezas duram menos do que uma campanha eleitoral.

Janine entrou. Hélio tentou. Os dois saíram

Joana Rosa chegou a ter companhia naquele espaço político.

Janine Lélis manifestou disponibilidade para disputar a Presidência, mas desistiu a 14 de Agosto, apontando as “tensões institucionais e partidárias” e o ambiente de polarização.

Hélio Sanches também quis entrar. Mas colocou uma condição muito mais clara: queria concorrer com o apoio do MpD.

Contactou os candidatos à liderança do partido, procurou perceber o terreno e acabou por concluir que não existiam as condições políticas necessárias.

Desistiu.

Antes disso, ainda criticou Joana Rosa e Janine Lélis por terem sido eleitas deputadas em Maio e, poucas semanas depois, aparecerem disponíveis para mudar de cadeira.

A discussão sobre a coerência sobreviveu à candidatura de quem a levantou.

Milton procura votos para além da casa

Milton Paiva, antigo deputado do MpD, escolheu uma estratégia diferente. Apresenta a sua disponibilidade como um projecto de cidadania e procura apoios no MpD, na UCID, no PTS e na sociedade civil.

A ideia é fugir da etiqueta partidária. É uma ambição compreensível numa eleição presidencial, onde constitucionalmente as candidaturas são pessoais.

O problema é que os candidatos podem declarar-se independentes dos partidos; os eleitores não perdem necessariamente a memória no caminho para as urnas.

E há ainda Casimiro de Pina.

Começou cedo.

Já em Janeiro pedia directamente ao MpD que apoiasse a sua candidatura, rejeitando aquilo a que chamou “subterfúgios, intrigas ou tacticismos de taberna”.

Até agora, o partido conseguiu evitar os tacticismos de taberna pelo método mais seguro:

não escolheu ninguém.

Primeiro é preciso arrumar a casa

É aqui que a situação do MpD se distingue daquela que existe na área política do PAICV. No PAICV, a pergunta é se José Maria Neves vai recandidatar-se e se Francisco Carvalho lhe dará o apoio do partido.

No MpD, a pergunta vem antes: quem terá autoridade política para decidir esse apoio?

Paulo Veiga, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares disputam uma liderança aberta depois da derrota de 17 de Maio. Todos falam de unidade. Todos falam de renovação. Todos falam da necessidade de devolver o partido às bases.

É curioso como os partidos descobrem a extraordinária importância das bases quase sempre depois de perderem eleições. Enquanto ganham, as bases costumam parecer muito bem onde estão.

E aqui está o problema que espera pelo vencedor

Quem assumir a liderança do MpD não herdará apenas um partido que acaba de perder o Governo depois de dez anos no poder. Herdará imediatamente uma escolha presidencial. E não encontrará o terreno vazio. Joana Rosa já está candidata. Milton Paiva procura construir espaço. Casimiro de Pina continua disponível. Janine Lélis retirou-se.

Hélio Sanches saiu precisamente porque não encontrou o apoio partidário que considerava indispensável. Há candidatos. O que ainda não há é candidato apoiado pelo  MpD. E essa diferença vale muitos votos.

O partido perdeu o Governo. Agora não pode perder Setembro

Aqui está o verdadeiro “parágrafo de veneno” desta história. O MpD passou dez anos habituado a decidir a partir do poder. Agora precisa de aprender novamente a decidir a partir da oposição.

E fará isso enquanto três candidatos disputam a liderança, várias sensibilidades procuram reposicionar-se depois da derrota e pelo menos uma figura claramente identificada com o partido já está em campanha presidencial.

O novo líder terá, portanto, uma escolha pouco confortável.

Pode apoiar quem já avançou. Pode escolher outro nome. Pode deixar os militantes dividirem-se entre diferentes candidaturas. Ou pode tentar vender como “liberdade de escolha” aquilo que os adversários rapidamente chamarão incapacidade de escolher.

Porque a neutralidade também é uma decisão política. Sobretudo quando faltam dez dias.

Antes de Novembro vem Setembro

As presidenciais são eleições de candidaturas pessoais.

É verdade.

Mas ninguém dentro do MpD desconhece a diferença entre ser candidato a Presidente da República e ser o candidato capaz de transportar consigo uma parte substancial do eleitorado do maior partido da oposição.

É esse capital político que está em disputa. Por isso, a primeira grande decisão presidencial do MpD não acontecerá nas urnas de Novembro. Acontecerá depois de 6 de Setembro.

Primeiro, os militantes escolhem quem manda na casa. Depois, o novo dono das chaves terá dez dias para ajudar a responder à pergunta que o partido continua a adiar: quem quer o MpD ver no Plateau?

Porque desta vez o partido não procura apenas um candidato presidencial.

Procura primeiro um presidente que consiga escolher um.

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