Humberto Bettencourt: quando o número dois passa a número um e a FCF escolhe não começar de novo

19/08/2026 12:27 - Modificado em 19/08/2026 12:27
@FCF

A Federação Cabo-verdiana de Futebol respondeu à saída de Bubista com uma escolha que é, antes de tudo, uma declaração de continuidade. Humberto Bettencourt não chega à selecção para descobrir os Tubarões Azuis.

Estava dentro do balneário, participou na construção da equipa e viveu por dentro o período mais importante da história do futebol cabo-verdiano. Agora deixa de ser o homem que ajudava a decidir para passar a ser aquele sobre quem recai a decisão final.

A Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) escolheu a continuidade.

Humberto Bettencourt, durante anos o homem que trabalhava ao lado de Pedro Brito “Bubista”, foi oficializado esta quarta-feira, 19 de Agosto, como novo seleccionador nacional de Cabo Verde.

A decisão, anunciada na Praia pelo presidente da FCF, Mário Semedo, evita uma ruptura precisamente no momento em que os Tubarões Azuis acabam de atravessar o período de maior afirmação da sua história.

E talvez seja essa a melhor maneira de compreender a escolha.

Humberto não foi contratado para substituir um treinador que fracassou. É chamado para suceder a um seleccionador que deixou a fasquia extraordinariamente alta.

Bubista conduziu Cabo Verde a duas fases finais da CAN e, sobretudo, à inédita qualificação para o Campeonato do Mundo de 2026. No Mundial, Cabo Verde ultrapassou a fase de grupos e chegou aos 16 avos-de-final, depois de resultados que incluíram empates frente à Espanha e ao Uruguai. Em 2025, Bubista tinha ainda sido distinguido como treinador africano do ano.

Foi esse treinador que deixou a selecção para assumir o comando do RS Berkane, de Marrocos, num contrato de duas temporadas.

Portanto, a pergunta que se colocava à FCF não era simplesmente quem contratar?

Era outra:

mudar ou preservar aquilo que funcionou?

O homem que já estava dentro da máquina

A Federação optou pela segunda solução.

Humberto Bettencourt, 51 anos, não chega como elemento estranho a uma estrutura consolidada. Trabalhou durante todo este ciclo ao lado de Bubista e há registos da sua presença como adjunto da selecção desde 2020. Bases internacionais de treinadores atribuem-lhe mais de 60 jogos enquanto adjunto de Bubista.

Mais importante: participou directamente no processo que transformou Cabo Verde numa selecção competitiva internacionalmente.

Conhece os jogadores.

Conhece os internacionais da diáspora.

Conhece os equilíbrios do balneário.

Conhece os métodos de trabalho.

Conhece aquilo que funcionou — e provavelmente também aquilo que, longe das câmaras, não funcionava.

Bubista e Humberto fizeram inclusivamente formação conjunta. Em 2021 concluíram uma formação em Direcção Técnica de Entidades, promovida pela Federação Portuguesa de Futebol, abordando planeamento estratégico, comunicação, liderança, modelos de treino e jogo e perfil do treinador.

Ou seja, durante anos não existiu apenas Bubista.

Existiu uma equipa técnica.

E Humberto estava dentro dela.

O velho princípio do futebol: se funciona, porquê desmontar?

A escolha da FCF está longe de constituir uma experiência inédita.

Algumas das maiores equipas da história resolveram mudanças traumáticas precisamente desta maneira: em vez de procurar fora alguém para reconstruir tudo, entregaram o comando a quem já conhecia a máquina por dentro.

O exemplo clássico continua a ser o Liverpool.

Quando Bill Shankly abandonou inesperadamente o clube em 1974, a direcção entregou a equipa ao seu adjunto Bob Paisley.

A explicação dada pelo próprio Liverpool na altura poderia quase servir para justificar a escolha feita agora pela FCF: a prioridade era preservar “continuity and stability” — continuidade e estabilidade.

Paisley tinha passado anos na sombra de Shankly.

Depois tornou-se um dos treinadores mais bem-sucedidos da história do futebol inglês.

E quando Paisley saiu, o Liverpool voltou a procurar dentro de casa.

Joe Fagan, que tinha sido seu adjunto, assumiu a equipa em 1983.

Na primeira temporada ganhou Campeonato inglês, Taça da Liga e Taça dos Campeões Europeus. O próprio Liverpool descreve a promoção de Fagan como a continuação lógica de um modelo que já tinha funcionado na passagem de Shankly para Paisley.

Não se mudou a máquina.

Mudou-se quem se sentava na cadeira principal.

Guardiola saiu. Ficou Tito

Décadas depois, o Barcelona tomou decisão semelhante.

Pep Guardiola abandonou o clube em 2012 depois de quatro temporadas extraordinárias.

Quem conhecia melhor aquela equipa?

Tito Vilanova, o seu adjunto.

Tito tinha participado directamente na construção do modelo e trabalhara quatro anos ao lado de Guardiola numa equipa que conquistou 14 títulos. O Barcelona explicou posteriormente que a sua promoção pretendia precisamente assegurar a transição e preservar o modelo futebolístico do clube.

O resultado imediato foi uma Liga espanhola conquistada com 100 pontos.

O adjunto não tentou destruir o que tinha ajudado a construir para provar que agora era o chefe.

Deu-lhe continuidade.

E existe o caso Scaloni

Talvez ainda mais interessante para Cabo Verde seja Lionel Scaloni.

Depois da saída de Jorge Sampaoli da selecção argentina após o Mundial de 2018, a Federação Argentina entregou provisoriamente a equipa a Scaloni, que tinha sido adjunto de Sampaoli no Mundial da Rússia.

Não era a grande figura internacional que muitos esperavam para dirigir Messi e companhia.

Era um homem que já estava dentro da estrutura.

O provisório tornou-se definitivo.

E o resto transformou-se numa das grandes histórias recentes do futebol argentino.

A lição não é que todos os adjuntos se transformam em grandes seleccionadores.

É muito mais simples: conhecer profundamente uma equipa pode ser uma vantagem competitiva numa sucessão.

Humberto não é Bubista — e não deve tentar sê-lo

Aqui começa, porém, a parte mais difícil da decisão da FCF.

Durante anos Humberto Bettencourt podia aconselhar.

Agora terá de decidir.

Um adjunto pode discordar em privado. O seleccionador responde em público.

O adjunto participa na preparação da convocatória. O seleccionador coloca o nome na lista.

O adjunto pode aproximar-se dos jogadores. O seleccionador terá também de os deixar no banco, substituí-los ou excluí-los.

É a diferença fundamental entre ser número dois e número um.

Por isso, continuidade não poderá significar simplesmente reproduzir Bubista.

Humberto terá de preservar aquilo que funcionou e, simultaneamente, introduzir a sua própria identidade.

Foi exactamente isso que aconteceu com Bob Paisley no Liverpool. Não tentou transformar-se numa cópia de Shankly. Era diferente na personalidade e na liderança, embora preservasse a cultura futebolística que ambos tinham construído. O próprio Liverpool recorda Paisley como o homem que trabalhava longe dos holofotes mas cujo conhecimento do jogo era reconhecido internamente como excepcional.

É provavelmente esse o desafio que agora espera Humberto Bettencourt.

Uma carreira construída em Cabo Verde

Ao contrário de uma eventual contratação estrangeira, Humberto chega ao cargo depois de construir praticamente toda a carreira de treinador no futebol cabo-verdiano.

Passou por clubes como Garridos de São Domingos, Fiorentina, Boavista da Praia, Celtic e Académica da Praia antes de integrar a equipa técnica da selecção. Registos disponíveis colocam-no no Boavista entre 2015 e 2018 e posteriormente na Académica da Praia, antes da integração definitiva na estrutura técnica nacional.

É, portanto, também uma promoção do treinador cabo-verdiano.

Depois de Bubista, outro técnico formado essencialmente no futebol nacional recebe a responsabilidade de dirigir a geração que colocou Cabo Verde no mapa mundial.

A vantagem e o perigo da continuidade

Há, contudo, um risco.

Quem estava dentro de um ciclo vitorioso herda tanto as virtudes como os problemas desse ciclo.

E existe ainda uma dificuldade psicológica inevitável: Humberto Bettencourt começará a ser comparado com Bubista desde o primeiro jogo.

Uma derrota será confrontada com o passado.

Uma convocatória será comparada.

Uma alteração táctica será discutida.

Um jogador deixado de fora será questionado.

É o preço de suceder a quem sai por cima.

Bubista não deixou a selecção despedido depois de uma sequência de derrotas. Saiu depois de conduzir Cabo Verde ao primeiro Mundial da sua história e de colocar os Tubarões Azuis entre as revelações da competição. A própria FIFA descreveu a sua passagem como o período em que o treinador “mostrou Cabo Verde ao mundo”.

A fasquia dificilmente poderia estar mais alta.

Não começar novamente do zero

Mas talvez tenha sido precisamente isso que pesou na decisão da Federação.

Depois de seis anos de construção, qualificação inédita para um Mundial, consolidação de um núcleo de jogadores e criação de uma identidade competitiva, trazer um treinador completamente estranho à estrutura significaria inevitavelmente iniciar outro processo.

Com Humberto Bettencourt, a FCF decidiu que não é necessário começar novamente.

O novo seleccionador conhece a casa porque ajudou a construí-la.

Conhece o caminho porque o percorreu ao lado de Bubista.

Conhece a geração porque participou na sua afirmação.

Agora terá de provar aquilo que nenhum adjunto consegue demonstrar enquanto permanece na sombra do treinador principal:

se também sabe comandar sozinho.

No fundo, a Federação fez uma aposta simultaneamente conservadora e arriscada.

Conservadora porque preserva o modelo.

Arriscada porque entrega ao antigo número dois a responsabilidade de suceder ao treinador que levou Cabo Verde onde nunca tinha chegado.

A história do futebol demonstra que estas transições podem funcionar extraordinariamente bem. Bob Paisley depois de Shankly, Joe Fagan depois de Paisley, Tito Vilanova depois de Guardiola são exemplos de que, por vezes, o sucessor já estava sentado no banco.

Mas existe uma condição.

O número dois só se transforma verdadeiramente em número um quando deixa de viver à sombra do antecessor.

Esse será, a partir de agora, o campeonato particular de Humberto Bettencourt.

Eduino Santos

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