As “mulas” voltaram?

16/08/2026 11:25 - Modificado em 16/08/2026 11:25

17 quilos de cocaína no aeroporto de São Vicente ressuscitam uma velha memória dos anos 90 e 2000.

Quando escrevemos sobre a apreensão de cerca de um quilo de cocaína no Aeroporto Internacional da Praia, a quantidade já nos parecia suficientemente séria para merecer mais do que a habitual nota policial e o inevitável “a PJ apreendeu”.

Agora, a Polícia Judiciária aparece com uma nova notícia. E desta vez não estamos a falar de um quilo.

Estamos a falar de 17,134 quilos de cocaína, distribuídos por 170 pacotes, encontrados na posse de uma cidadã cabo-verdiana de 32 anos, natural de Santiago, que desembarcava no Aeroporto Internacional Cesária Évora, em São Vicente, num voo proveniente de São Paulo, com escala em Lisboa.

A droga estava escondida na mala e no interior de vários casacos.

A mulher foi detida pela Brigada de Investigação de Tráfico de Estupefacientes da PJ e o Tribunal da Comarca de São Vicente decretou a sua prisão preventiva.

Até aqui, os factos.

Mas 17 quilos não são propriamente uma quantidade que permita tratar o episódio como mais uma ocorrência policial.

É uma quantidade considerável.

E é precisamente aqui que a memória regressa.

Durante os anos 90 e início dos anos 2000, Cabo Verde conheceu o fenómeno das chamadas “mulas”: pessoas utilizadas para transportar droga através dos aeroportos, muitas vezes assumindo pessoalmente o risco enquanto aqueles que organizavam o negócio permaneciam confortavelmente longe das malas, dos aeroportos e, sobretudo, das cadeias.

São Vicente conheceu bem essa realidade.

Durante algum tempo pareceu que esse capítulo pertencia ao passado. As “mulas” desapareceram do discurso público, as rotas mudaram, os métodos de transporte sofisticaram-se e a luta contra o tráfico ganhou novos instrumentos.

Mas talvez tenhamos confundido silêncio com desaparecimento.

Porque agora temos uma mulher a desembarcar em São Vicente com 17 quilos de cocaína.

E a pergunta inevitável é: quem a mandou?

Porque é difícil imaginar que alguém transporte 17 quilos de cocaína entre continentes apenas porque acordou numa manhã de agosto e decidiu experimentar a profissão de traficante internacional.

Uma operação desta dimensão pressupõe organização, dinheiro, contactos, logística e, sobretudo, alguém interessado em que a mercadoria chegue ao destino.

A mulher detida é, neste momento, arguida e beneficia da presunção de inocência. A Justiça deverá determinar o seu grau de responsabilidade e esclarecer as circunstâncias concretas da operação.

Mas seria ingénuo não fazer perguntas.

As “mulas” dos anos 90 e 2000 podem ter mudado de nome, de método e de rota. O negócio, esse, parece ter uma extraordinária capacidade de adaptação.

E Cabo Verde continua exactamente no mesmo sítio do mapa.

No meio do Atlântico.Com aeroportos internacionais.E com uma localização que, para o turismo, é uma bênção.Para o narcotráfico  sempre foi   uma oportunidade.

Agora cabe à PJ descobrir se os 17 quilos acabam na cadeia com a mulher que os transportava — ou se, como tantas vezes acontece neste negócio, os verdadeiros donos da mercadoria continuam muito longe do aeroporto.

Porque uma coisa é certa:

17 quilos de cocaína não cabem numa velha história de “mula”.

Cabem numa história de organização criminosa.

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.