
Um cidadão nigeriano foi detido na Praia com 1,1 quilo de cocaína escondido no organismo. É mais uma apreensão significativa nos aeroportos cabo-verdianos, depois de outras operações que mostram que as rotas aéreas continuam a ser uma das portas de entrada do narcotráfico no arquipélago.
O aeroporto voltou a ser notícia — e, desta vez, não por causa de atrasos, malas perdidas ou passageiros à espera.
Um cidadão nigeriano, de 37 anos, foi detido no Aeroporto Internacional Nelson Mandela com 1.113,55 gramas de cocaína distribuídos por 59 cápsulas escondidas no organismo. A droga, segundo os testes preliminares da Polícia Judiciária, apresentava elevado grau de pureza e poderia corresponder a cerca de 11.130 doses individuais.
O Tribunal da Comarca da Praia decretou prisão preventiva.
O suspeito tinha chegado de Lomé, Togo, e transportava ainda 650 dólares e 200 euros.
Mais um caso.
E é precisamente o “mais um” que merece atenção. Porque não é um episódio isolado.
Em Maio, uma cidadã brasileira foi detida no mesmo aeroporto, proveniente de São Paulo, com 107 cápsulas de cocaína no organismo, num peso superior a um quilograma. Também ficou em prisão preventiva.
Em Julho, a Operação SHARK revelou outra dimensão do problema: a PJ desmantelou uma alegada rede de tráfico que, segundo a investigação, actuava há mais de 15 anos e distribuía cocaína em território nacional. Foram apreendidos 1,16 quilograma de cocaína, dinheiro, 25 viaturas, armas e outros bens. Sete dos 12 detidos ficaram em prisão preventiva.
Ou seja, temos duas histórias diferentes que começam a encontrar-se.
A droga entra. Alguém a distribui. E alguém, algures, paga por ela.
O aeroporto está a detectar. Mas será suficiente?
A sequência de apreensões demonstra que as autoridades têm conseguido interceptar parte das operações.
Mas também levanta uma pergunta mais incómoda: quantas passam?
Uma apreensão é uma vitória da investigação criminal.
Dezenas de apreensões podem ser também um indicador de que existe um mercado suficientemente atractivo para justificar que organizações criminosas continuem a tentar utilizar Cabo Verde como rota.
E aqui o problema deixa de ser apenas policial.
Passa a ser de segurança nacional, controlo de fronteiras e cooperação internacional.
Cabo Verde está situado numa posição geográfica que o torna particularmente exposto às rotas entre África, Europa e América.
Por isso, cada cápsula encontrada num estômago não deve ser vista apenas como uma história policial.
É uma pequena peça de uma operação muito maior.
E a pergunta que fica é simples: quantas mais precisam de ser apreendidas até percebermos que o problema não está apenas nos passageiros que chegam com droga escondida, mas nas redes que os recrutam, financiam e esperam do outro lado?
Porque prender o transportador resolve um voo. Desmantelar a rede é que pode resolver o problema.