
A Presidente da Assembleia Nacional foi à Baía das Gatas a convite do edil Augusto Neves. Foi recebida, entregou um diploma a Leo Santana e voltou para casa encantada. Tudo perfeitamente normal. Ou talvez não. Porque, no protocolo de Estado, há convites que dizem mais do que parecem dizer.
Há textos que são difíceis de ler sem sorrir.
Não porque sejam engraçados.
Mas porque, quando uma Presidente da Assembleia Nacional escreve que foi convidada para um festival pelo presidente de uma Câmara Municipal e que teve ainda a honra de entregar um diploma ao artista principal, percebemos que a política cabo-verdiana continua capaz de transformar um simples festival numa pequena cimeira de Estado.
E a Presidente da Assembleia Nacional gostou.
Gostou tanto que repetiu várias vezes.
São Vicente é Cultura. São Vicente é Magia. São Vicente é Alegria. São Vicente é Esperança.
E, finalmente, veio a conclusão:
“SONCENT” é, de facto, especial.
Não temos qualquer dúvida.
A questão é outra.
Segundo a própria publicação, a Presidente da Assembleia Nacional esteve na Baía das Gatas a convite do presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves.
E aqui começa a parte interessante.
Porque os festivais são eventos culturais.
Mas também são acontecimentos políticos.
E a Baía das Gatas, convenhamos, já tem uma longa tradição de receber figuras de Estado.
Normalmente, quando se pensa nas principais figuras da República associadas a uma cerimónia desta dimensão, lembramo-nos do Presidente da República e do Primeiro-Ministro.
O Presidente da Assembleia Nacional é a segunda figura do Estado.
Mas não é, por tradição protocolar, a figura que aparece necessariamente como convidada de honra de um festival municipal.
Desta vez apareceu.
E apareceu não apenas como espectadora.
Foi convidada a subir ao palco e entregar, juntamente com o presidente da Câmara, o diploma de participação a Leo Santana.
Uma pequena cerimónia dentro da grande cerimónia.
Aqui temos de reconhecer uma coisa ao edil mindelense.
Augusto Neves sabe receber.
E sabe também aproveitar os momentos.
Depois de ter sido eleito pelo MpD, derrotando precisamente o atual ministro da Cultura, António Duarte, o presidente da Câmara tem agora pela frente uma nova realidade política: um Governo PAICV.
E talvez não seja coincidência que, num dos maiores acontecimentos culturais de São Vicente, esteja ao seu lado uma das mais altas figuras do Estado que pertence ao PAICV.
Não estamos a dizer que exista qualquer cálculo político.
Estamos apenas a dizer que, em política, até os convites têm memória.
A Presidente da Assembleia Nacional não escondeu o entusiasmo.
Falou da multidão.
Da música.
De Leo Santana.
Da energia da ilha.
Do impacto económico, cultural e social do festival.
Tudo muito legítimo.
Aliás, seria estranho uma Presidente da Assembleia Nacional sair da Baía das Gatas dizendo que passou uma noite aborrecida.
Seria provavelmente a primeira pessoa da República a conseguir transformar Leo Santana numa questão regimental.
Mas há uma frase que merece atenção:
“São Vicente também é o Festival Baía das Gatas.”
Aqui estamos de acordo.
O festival é uma das maiores marcas culturais de São Vicente.
E talvez precisamente por isso seja importante que quem exerce funções de Estado perceba que a Baía das Gatas não pertence ao presidente da Câmara, ao Governo, à Assembleia Nacional ou a qualquer partido.
Pertence a São Vicente.
O mais interessante desta história não é a Presidente ter ido ao festival.
É o facto de ter sido convidada pessoalmente pelo edil e de isso ter merecido um agradecimento público tão entusiástico.
Talvez seja apenas cortesia institucional.
Talvez seja uma demonstração de proximidade entre instituições.
Talvez seja simplesmente Augusto Neves a fazer aquilo que qualquer bom anfitrião faz: convidar quem considera importante.
Mas nós, no Notícias do Norte, temos uma deformação profissional.
Desconfiamos dos detalhes. Principalmente quando se trata de relações entre instituições partidarizadas pelo MpD e PAICV.
Porque há detalhes que, em política, são mais eloquentes do que os discursos.
E este diz-nos pelo menos uma coisa:
a Baía das Gatas continua a ter poder.
Poder cultural.
Poder económico.
Poder mediático.
E, aparentemente, algum poder protocolar.
Claro que é.
Tão especial que uma Presidente da Assembleia Nacional foi convidada pelo presidente da Câmara, recebeu tratamento de convidada especial, entregou um diploma a uma estrela brasileira e regressou a Praia com a certeza de que São Vicente é “magia, alegria e esperança”.
Não sabemos se o protocolo de Estado prevê uma categoria para isto.
Mas o protocolo de São Vicente parece estar bastante bem treinado.
E há uma última ironia.
A Presidente da Assembleia Nacional terminou dizendo:
“SONCENT É, DE FACTO, ESPECIAL!”
Nós acrescentaríamos apenas:
Especial o suficiente para que até o terceiro órgão de soberania venha ao palco entregar o diploma.
Agora falta saber quem será convidado para a próxima edição.
Porque, a este ritmo, a Baía das Gatas pode deixar de ser apenas um festival.
Pode transformar-se no único lugar do país onde o protocolo de Estado também dança.