Bubista não saiu. Foi levado. E por um preço que o futebol africano nunca viu

4/08/2026 21:56 - Modificado em 4/08/2026 22:23
Bubista

A questão nunca foi saber se a Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) queria renovar o contrato. Nem se Bubista exigiu demasiado. A verdadeira história começa quando um clube marroquino colocou sobre a mesa um contrato que poderá atingir 1,5 milhões de dólares por época. A investigação do Notícias do Norte conclui que, perante esses números, a saída deixou de ser uma negociação. Passou a ser uma inevitabilidade.

Durante dias, a discussão centrou-se na notícia. Bubista deixou a seleção nacional.

Uns responsabilizaram a Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF).

Outros perguntaram se o treinador teria exigido um salário incomportável para a realidade cabo-verdiana. Houve até quem sugerisse que a Federação não fez tudo para manter o homem que conduziu Cabo Verde ao maior feito da sua história futebolística. A investigação do Notícias do Norte aponta, contudo, para uma realidade muito diferente. A pergunta nunca foi se Bubista ficava. A pergunta era se Cabo Verde podia competir com aquilo que o mercado internacional decidiu pagar.E a resposta foi imediata.

Não podia.

Segundo informações confirmadas ao Notícias do Norte por fontes com conhecimento direto do processo… ouvidas pelo Notícias do Norte, Bubista poderá auferir entre 1,3 e 1,5 milhões de dólares por época, incluindo salário, prémios e direitos de imagem. Se estes valores se confirmarem, estaremos perante um contrato sem precedentes no futebol marroquino e um dos mais elevados alguma vez pagos a um treinador de clubes em África. As mesmas fontes utilizam uma expressão que resume tudo.

“É uma loucura.”

E acrescentam outro detalhe.

Quando Bubista colocou esses números sobre a mesa das conversações com a Federação, as portas abriram-se para a sua saída. Não houve ruptura.

Nem conflito. Nem falta de reconhecimento.

Houve apenas um momento em que todos perceberam que o futebol cabo-verdiano tinha deixado de discutir um contrato. Estava a discutir uma realidade financeira que simplesmente não existe em Cabo Verde.

Não é uma loucura apenas para Cabo Verde

Mas talvez a maior surpresa da investigação do Notícias do Norte seja outra.

Esses valores não representam apenas uma impossibilidade para a Federação Cabo-verdiana de Futebol.

Representam também uma autêntica revolução no mercado africano de treinadores.

Até agora, o maior salário conhecido pago por um clube marroquino rondava os 480 mil dólares anuais, auferidos pelo técnico tunisino Faouzi Benzarti, durante a sua passagem pelo Wydad Casablanca.

Mesmo os grandes clubes de Marrocos — Wydad, Raja Casablanca ou RS Berkane, que Bubista vai treinar , — trabalham normalmente com salários entre 20 mil e 40 mil dólares mensais, podendo estes crescer através de prémios por objetivos.

Se os valores apurados pelo Notícias do Norte se confirmarem, Bubista não será apenas o treinador cabo-verdiano mais bem pago de sempre. Passará a ser, muito provavelmente, o treinador de clubes mais bem remunerado do futebol africano.

É uma mudança de escala. E também de estatuto.

O mercado pagou pelo Mundial

Há uma tendência natural para olhar para a saída de Bubista como uma perda.

É.

Mas é também outra coisa. É a consequência direta do Mundial.

Durante semanas, o mundo viu um treinador africano desmontar, com inteligência tática, seleções como Espanha, Uruguai e Argentina.

Viu uma equipa organizada. Disciplinada. Capaz de competir sem abdicar da sua identidade.

Enquanto em Cabo Verde se celebravam resultados, em vários gabinetes de clubes africanos e árabes alguém fazia outra conta.

Quanto vale este treinador?

Marrocos respondeu primeiro.

E respondeu com um cheque.

A Federação não perdeu Bubista. O mercado ganhou-o.

É fácil apontar o dedo à Federação.

Mais difícil é responder a uma pergunta simples.

Que Federação africana conseguiria competir com um contrato desta dimensão?

O futebol cabo-verdiano vive da boa gestão, da formação e de recursos limitados.

Os grandes clubes marroquinos vivem de investidores, receitas televisivas, patrocínios milionários e uma dimensão económica completamente diferente.

Comparar ambos os mercados é como pedir a um clube cabo-verdiano que dispute financeiramente um jogador com a Premier League.

Não acontece.

Tentámos ouvir Bubista

O Notícias do Norte tentou contactar Pedro Leitão “Bubista” para confirmar os valores e obter a sua versão dos factos.

Até ao fecho desta edição, o treinador não respondeu às mensagens enviadas.

Mantemos, naturalmente, total disponibilidade para publicar a sua posição.

O verdadeiro legado

Talvez esta notícia diga mais sobre o futebol cabo-verdiano do que sobre Bubista.

Durante décadas exportámos jogadores. Agora começamos a exportar treinadores.

E não qualquer treinador. Um treinador cujo trabalho passou a valer, segundo as informações recolhidas pelo Notícias do Norte, um contrato que quebra todos os padrões conhecidos do futebol africano.

Há quem veja nesta saída uma derrota. Nós vemos outra coisa.

Durante anos perguntámos quando Cabo Verde começaria a exportar conhecimento.

A resposta chegou. Vestia fato de treino. Chamava-se Bubista.

E o mercado internacional acabou de lhe atribuir um preço que nem Cabo Verde, nem grande parte de África, conseguem acompanhar.

Porque há treinadores que saem. E há treinadores que são levados.

Bubista pertence claramente à segunda categoria.

Em poucas semanas, o mercado internacional levou de Cabo Verde um treinador por um contrato que poderá atingir 1,5 milhões de dólares por época e um guarda-redes de 41 anos por cerca de 480 mil dólares anuais. Talvez seja este o maior legado do Mundial. Não foi apenas a campanha histórica dentro das quatro linhas. Foi o momento em que o mercado internacional começou finalmente a atribuir preço ao talento produzido por um pequeno arquipélago no Atlântico.

Eduino Santos

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.