Estados Unidos tornam permanente a exigência de depósitos até 20 mil dólares para cidadãos cabo-verdianos que pretendam obter vistos de turismo ou negócios. A amizade entre os dois países continua. Mas, na política internacional, amizade nunca dispensou garantias bancárias.

Há expressões que sobrevivem ao tempo porque a realidade insiste em confirmá-las.
Uma delas diz que na política internacional não existem amigos; existem interesses.
Cabo Verde acaba de receber mais uma demonstração dessa velha máxima.
Os Estados Unidos decidiram tornar permanente o programa que obriga cidadãos de determinados países, entre eles Cabo Verde, a depositarem uma caução que pode atingir 20 mil dólares para obter um visto de turismo ou de negócios.
A medida nasceu em 2025 como experiência. Agora transforma-se em política permanente. Washington diz que funcionou. Reduziu os casos de permanência ilegal.
Logo, fica. É simples. Para os Estados Unidos.
Muito menos simples para um cabo-verdiano cuja viagem pode agora começar com uma garantia equivalente ao preço de uma casa em muitas localidades do país.
A linguagem da amizade e a linguagem dos interesses
Ao longo das últimas décadas, Cabo Verde habituou-se a ouvir que os Estados Unidos são um dos seus parceiros mais próximos.
E é verdade. A cooperação existe. A diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos é uma das maiores do mundo. Há programas de apoio ao desenvolvimento, investimentos, cooperação militar, intercâmbio académico e uma relação histórica que atravessa gerações. Tudo isso continua verdadeiro. Mas também é verdade outra coisa.
Quando os interesses da política migratória norte-americana entram em campo, a amizade muda de lugar.
Passa para o segundo plano.
A mensagem é clara
Washington está, na prática, a dizer aos requerentes de visto:
“Se acreditamos que existe risco de permanecer ilegalmente no nosso território, queremos uma garantia financeira.”
Não interessa se o requerente é empresário. Professor. Investigador. Ou simples turista.
A decisão será individual.
Mas a possibilidade existe. E até ao valor máximo de 20 mil dólares.
É uma mensagem política tanto quanto administrativa.
O paradoxo cabo-verdiano
Há aqui uma ironia difícil de ignorar.
Durante anos, os Estados Unidos elogiaram Cabo Verde como exemplo de estabilidade democrática, boa governação e parceiro estratégico na África Ocidental.
São elogios merecidos.
Mas quando chega a política migratória, Cabo Verde é colocado na mesma lista de países cujos cidadãos são considerados potenciais incumpridores das regras de permanência.
É uma contradição. Ou, talvez mais exatamente, uma demonstração de como funcionam as relações internacionais. Os elogios pertencem à diplomacia.As restrições pertencem aos interesses nacionais.
O cemitério dos amigos
Há uma frase popular, repetida muitas vezes na política internacional:
“O cemitério está cheio de amigos dos Estados Unidos.”
É uma frase dura. Talvez excessiva. Mas lembra uma realidade que os pequenos Estados conhecem bem. As grandes potências não definem políticas externas com base em sentimentos. Nem em gratidão. Nem em relações históricas.
Definem-nas com base naquilo que entendem ser o seu interesse nacional.
Foi assim durante a Guerra Fria. Continua a ser assim hoje.
Os Estados Unidos não adotaram esta medida contra Cabo Verde.
Adotaram-na a favor daquilo que consideram ser a proteção do seu sistema migratório.
É diferente. Mas o efeito prático, para os cabo-verdianos, é exatamente o mesmo.
Uma questão que também nos deve interpelar
Seria cómodo transformar esta decisão apenas numa crítica a Washington.
Seria também incompleto. Os Estados Unidos justificam a medida dizendo que ela reduziu os casos de permanência ilegal. Isso significa que existe um problema que não pode ser ignorado.
Quantos cidadãos entram com visto temporário e permanecem ilegalmente?
Qual a taxa de incumprimento dos cabo-verdianos?
O Governo cabo-verdiano conhece esses números?
E, mais importante, está a trabalhar diplomaticamente para os reduzir?
Porque cada permanência ilegal de hoje pode significar maiores restrições para milhares de cidadãos cumpridores de amanhã.
A amizade também se mede nos momentos difíceis
A decisão norte-americana não rompe a relação histórica entre os dois países.
Mas deixa uma marca. Sobretudo porque atinge cidadãos comuns.
Pessoas que querem visitar familiares. Participar em conferências.
Fechar negócios. Ou simplesmente fazer turismo.
É legítimo que os Estados Unidos protejam as suas fronteiras.
É igualmente legítimo que Cabo Verde dialogue com um parceiro histórico para tentar demonstrar que merece um tratamento diferente.
Porque as amizades internacionais não se medem apenas pelos discursos nas cerimónias oficiais. Medem-se também quando chega o momento de decidir quem merece confiança. E, desta vez, Washington decidiu que essa confiança… tem preço : Até 20 mil dólares.
Eduino Santos