
O rapper cabo-verdiano Mark Delman prepara-se para dar um dos passos mais marcantes da sua carreira. No dia 27 de novembro, atua pela primeira vez no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, um palco que considera “mítico”, ao mesmo tempo que trabalha num novo álbum, com lançamento previsto para o próximo ano.
Em entrevista à agência Lusa, o artista natural de São Vicente afirmou que encara este concerto como um momento especial, mas garante que continua a valorizar todas as etapas do percurso.
“Cada conquista, por mais pequena que seja, eu valorizo sempre. Não fico a medir as conquistas. Nos olhos do ‘mainstream’ pode haver uma conquista maior do que outra, mas nos meus olhos não”, afirmou.
A chegada ao Coliseu contrasta com o início improvisado da sua carreira. O primeiro espetáculo aconteceu sobre um camião, adaptado a palco por falta de recursos.
“O nosso primeiro palco foi num camião. Não tínhamos dinheiro para um palco, alugámos um camião”, recordou.
Foi também em São Vicente que descobriu o rap. Depois de começar pela dança em atividades escolares, foi desafiado por um produtor a escrever a primeira letra. A reação dos amigos deu-lhe a confiança para continuar, embora nunca imaginasse que a música se tornaria a sua profissão.
A paixão pela música nasceu ainda na infância, influenciada pelo pai, que lhe apresentou artistas de diferentes partes do mundo. Mais tarde, encontrou no hip-hop a forma de expressar a sua identidade, inspirado por nomes internacionais como Eminem e 50 Cent, mas também por referências do rap crioulo cabo-verdiano e pelos portugueses Sam The Kid e Valete.
Depois do lançamento do EP 5M Vibes, em 2016, na plataforma SoundCloud, Mark Delman consolidou o seu percurso com o álbum #1991, editado em 2021, trabalho que assinalou o momento em que passou a viver exclusivamente da música. Em 2025 lançou SM!HA (Só Mas Um História D’amor…), reforçando a sua afirmação no panorama musical.
Atualmente, o artista reúne cerca de 100 mil seguidores nas várias plataformas digitais, mas garante que os números não alteraram a forma como encara a carreira.
“O meu objetivo sempre foi fazer arte”, afirmou, sublinhando que procura inspirar sobretudo os cabo-verdianos e manter-se ligado às suas origens.
“Para chegar longe tens de saber de onde vens. É como uma casa: começa por uma boa base. Nunca me esqueço de onde venho e tento sempre falar da perspetiva de um cabo-verdiano”, acrescentou.
Enquanto prepara o próximo disco, Mark Delman mantém um hábito que considera essencial no processo criativo: escrever à mão.
“Agora mesmo comprei um caderno novo porque estou a fazer um álbum novo, para sair no próximo ano. Ponho lá todas as ideias, a mensagem que quero passar e o que quero transmitir”, explicou.
Segundo o rapper, escrever em papel cria um compromisso maior consigo próprio.
“Só o facto de escrever já me dá mais responsabilidade. Já fico com a sensação de que tenho de fazer acontecer.”
A inspiração pode surgir nos momentos mais inesperados. Recorda que uma das músicas escritas para Nelson Freitas nasceu enquanto adormecia num estúdio.
“Peguei no sono e comecei a ouvir a melodia com a letra do refrão na minha cabeça. Acordei e disse: ‘É isso, vamos fazer agora’. Fizemos logo a música”, contou.
A ligação aos livros também marcou o seu percurso. Filho de uma família de professores, começou cedo a criar hábitos de leitura graças a um tio, professor de Português e Latim, que lhe oferecia livros em todos os aniversários.
Essa relação com a língua influencia a sua escrita. Embora componha sobretudo em crioulo, admite que pretende lançar músicas em português.
“Escrever não é problema. O problema é o sotaque”, disse, reconhecendo que a língua portuguesa oferece mais possibilidades de expressão, mas garantindo que esse desafio será ultrapassado no futuro.
A quatro meses da estreia no Coliseu dos Recreios, Mark Delman confirmou ainda a participação de vários convidados no espetáculo, entre os quais Loreta, Neyna e LG, além de duas figuras conhecidas da música portuguesa, cujos nomes serão revelados mais perto da data do concerto.
NN/Lusa