UCID defende políticas de Estado e alerta que crescimento económico não reflete realidade das famílias

29/07/2026 18:59 - Modificado em 29/07/2026 18:59

A deputada da UCID, Zilda Oliveira, considerou esta quarta-feira que o crescimento económico registado por Cabo Verde não pode servir para esconder as dificuldades enfrentadas diariamente por muitas famílias cabo-verdianas. Durante o debate sobre o Estado da Nação, a parlamentar defendeu uma maior integração das políticas públicas e a construção de políticas de Estado capazes de garantir um desenvolvimento sustentável.

Segundo Zilda Oliveira, o Estado da Nação deve ser avaliado, sobretudo, pela qualidade de vida da população e não apenas por indicadores económicos como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ou o número recorde de turistas.

“Não pretendemos negar os avanços que Cabo Verde tem registado, mas também não aceitamos que indicadores económicos abstratos escondam as dificuldades que continuam a marcar o dia a dia de muitas famílias cabo-verdianas”, afirmou.

A deputada apresentou duas prioridades que a UCID já tinha defendido na antevisão do Estado da Nação de 2025. A primeira passa por uma maior integração das políticas públicas, garantindo que áreas como habitação, educação, transportes, saúde e emprego funcionem de forma articulada para responder às necessidades reais das famílias.

A segunda prioridade consiste na criação de políticas de Estado, assentes em consensos entre as diferentes forças políticas e a sociedade civil, de forma a assegurar continuidade nas reformas estruturantes, independentemente das mudanças de Governo.

Crescimento económico exige diversificação

Zilda Oliveira reconheceu que Cabo Verde registou um crescimento económico de 6,3% em 2025, impulsionado sobretudo pelo setor dos serviços e pelo turismo, que atingiu um recorde histórico de 1,25 milhões de visitantes e representa cerca de 22% da força de trabalho nacional.

Contudo, alertou que o próprio Banco Mundial chama a atenção para a forte dependência do turismo, concentrado essencialmente nas ilhas do Sal e da Boa Vista, além da excessiva dependência do mercado europeu, responsável por cerca de 93% dos turistas.

Na sua perspetiva, a diversificação da economia tornou-se uma necessidade urgente para reduzir a vulnerabilidade do país perante eventuais crises externas.

A parlamentar destacou ainda que a inflação média anual se fixou em 2,3% em 2025, enquanto a dívida pública do Governo Central atingiu 100,7% do PIB, subindo para 108,4% quando são incluídas as garantias às empresas públicas e municípios.

Referiu igualmente que o serviço da dívida absorve mais de um terço das receitas públicas correntes.

Outro ponto salientado foi a reclassificação de Cabo Verde como país de rendimento médio-alto, ocorrida em julho de 2025. Apesar de representar um reconhecimento dos progressos alcançados, advertiu que esta mudança reduzirá o acesso a financiamentos concessionais e à ajuda externa tradicional.

Para a deputada, o país terá de apostar cada vez mais na atração de investimento privado e em parcerias estratégicas para manter o ritmo de crescimento económico.

Apesar da estabilidade macroeconómica, Zilda Oliveira afirmou que muitos cabo-verdianos continuam sem sentir melhorias nas suas condições de vida.

Segundo os dados apresentados, cerca de 24,75% da população vive em situação de pobreza absoluta e 2,28% em pobreza extrema, realidade mais acentuada nas zonas rurais.

A deputada apontou ainda para a persistência do défice habitacional e das desigualdades entre as diferentes ilhas.

A UCID considera que o setor privado continua a enfrentar vários obstáculos ao crescimento, entre eles constrangimentos nos transportes, burocracia aduaneira, dificuldades no acesso ao crédito, exigências de garantias bancárias, taxas de juro elevadas e elevados custos de contexto.

Na educação, Zilda Oliveira reconheceu que o acesso ao ensino é praticamente universal, mas alertou para a redução das taxas de conclusão escolar e para os fracos resultados de aprendizagem.

Segundo dados do Relatório Nacional Voluntário, cerca de 60% dos alunos do 2.º e 6.º anos apresentam dificuldades significativas na leitura, interpretação de textos e operações matemáticas básicas.

A deputada defendeu uma mudança de paradigma, centrando o sistema educativo na qualidade das aprendizagens e na inclusão, além de uma melhor articulação entre a formação e as necessidades do mercado de trabalho.

Grande parte da intervenção incidiu sobre a situação dos jovens.

Embora a taxa oficial de desemprego tenha descido para 6,2%, Zilda Oliveira afirmou que persistem problemas estruturais, com uma taxa de subutilização do trabalho de 23,6%, mais de 16 mil trabalhadores em situação de subemprego e cerca de 45,6% dos empregos na informalidade.

A deputada chamou ainda a atenção para as desigualdades salariais entre homens e mulheres e para o número de jovens que não estudam, não trabalham nem frequentam formação, estimado em 15.716 pessoas entre os 15 e os 24 anos.

Segundo referiu, 54,7% dos jovens consideram fracas ou muito fracas as oportunidades de emprego em Cabo Verde, percentagem que sobe para 55,2% em São Vicente.

Perante este cenário, afirmou que 64,6% dos jovens manifestam intenção de emigrar, situação que já começa a ter impacto em vários setores da economia nacional.

Na área da saúde, a deputada reconheceu melhorias em vários indicadores, incluindo a redução das evacuações e a expansão dos cuidados de saúde primários.

Contudo, defendeu mais investimento na descentralização dos serviços, na modernização tecnológica e na qualidade da resposta prestada aos utentes.

Alertou igualmente que as doenças não transmissíveis representam 57% das mortes no país e considerou necessário reforçar o investimento na saúde mental, na humanização dos serviços e no cumprimento da recomendação da Organização Mundial da Saúde de afetar 15% do orçamento ao setor.

Sobre a segurança, Zilda Oliveira reconheceu a redução de vários indicadores da criminalidade em 2025, atribuindo os resultados ao trabalho das forças de segurança e às políticas de prevenção.

Apesar disso, alertou que continuam a existir preocupações relacionadas com a violência contra menores, o aumento dos roubos e outros fenómenos que exigem respostas consistentes por parte do Estado.

NN

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