Na cama de uma criança brasileira, um boneco conta uma história que começou muito longe dali, na Bela Vista, em São Vicente. Vozinha já não é apenas o guarda-redes de Cabo Verde. Para Nicollas, tornou-se a prova de que os sonhos podem ter rosto.

Por: Eduíno Santos
Há fotografias que não precisam de legenda. Esta quase não precisava. Um menino dorme.
Ao seu lado, apertado contra o corpo como se fosse daqueles amigos que as crianças levam para a cama porque ajudam a afastar os medos da noite, está um pequeno boneco de croché.
Tem barba.Veste a camisola de guarda-redes.
É Vozinha.
E talvez seja preciso olhar para esta fotografia durante alguns segundos para perceber a dimensão daquilo que aconteceu. Porque aquele boneco não representa Messi. Não representa Cristiano Ronaldo.
Não representa uma das estrelas fabricadas pelos grandes clubes europeus, com milhões de seguidores, contratos publicitários e camisolas vendidas nos quatro cantos do planeta.
Representa um homem que nasceu na Belavista, em São Vicente. Um rapaz simples que um dia começou a defender bolas e acabou, sem provavelmente alguma vez imaginar, a guardar os sonhos de uma criança brasileira.
**Da Belavista para a cabeceira de Nicollas**
O pai conta que todas as noites Nicollas dorme abraçado ao seu Vozinha. Não de vez em quando. Todas as noites. E escreve uma frase que explica tudo:
Não é apenas um boneco. É inspiração. Talvez seja essa a maior defesa da carreira de Vozinha. Não aconteceu entre os postes. Não exigiu reflexos. Não houve remate. Não houve estádio. Houve apenas um menino que viu aquele homem defender a baliza de um pequeno arquipélago africano diante dos gigantes do futebol mundial e decidiu que queria levá-lo consigo para a cama.
É difícil medir uma coisa destas em estatísticas.
Não aparece nas fichas da FIFA. Não conta como defesa. Mas talvez conte muito mais.
O Mundial que Cabo Verde ainda não acabou de compreender. Passamos semanas a discutir resultados. Probabilidades. Tácticas. Qualificações. Falámos da Espanha. Do Uruguai. Da Argentina.
Falámos de David e Golias e das fundas que Bubista foi inventando para enfrentar gigantes. Mas talvez ainda não tenhamos percebido completamente o que esta seleção fez. Cabo Verde entrou num Mundial para jogar futebol. E saiu de lá entrando na vida das pessoas.
No Brasil, milhões descobriram que existia um arquipélago chamado Cabo Verde.
Aprenderam a nossa bandeira.
Conheceram os nossos jogadores. Torceram pelos Tubarões Azuis.
E algumas crianças escolheram os seus heróis.
Nicollas escolheu Vozinha.
**E tinha de ser Vozinha**
Talvez haja alguma justiça poética nisso.
Porque Vozinha nunca teve a construção artificial de uma estrela. É o homem simples de São Vicente.
O “bom menino” que quem o conheceu antes dos holofotes continua a reconhecer depois deles.
O guarda-redes que chegou ao maior palco do futebol sem deixar no caminho o rapaz da Belavista.
E talvez seja precisamente isso que uma criança consegue perceber sem precisar que ninguém lhe explique.
Os adultos escolhem ídolos pelos títulos.
As crianças escolhem-nos por aquilo que sentem. Nicollas viu Vozinha e encontrou alguma coisa.
Coragem, talvez. Persistência.
Ou simplesmente aquele mistério que transforma um jogador distante numa pessoa que uma criança sente que conhece.
**Um boneco entre dois países**
Há ainda qualquer coisa extraordinária naquela cama.
Nicollas é brasileiro.Vozinha é cabo-verdiano. Provavelmente nunca se encontraram. Separados por um oceano, aproximados por uma bola.
E agora todas as noites, algures no Brasil, Cabo Verde adormece nos braços de uma criança.
Pode parecer exagero. Mas olhem novamente para a fotografia.
O futebol fez aquilo que a diplomacia, o turismo e milhões gastos em promoção externa dificilmente conseguem fazer:
Criou afecto.
Nicollas não precisou que lhe explicassem onde fica Cabo Verde.
Encontrou-o. Estava numa baliza.
**Quem sabe um dia**
O pai deixa um desejo:
**quem sabe um dia esse abraço aconteça de verdade, em Cabo Verde.**
Seria bonito.Nicollas chegar a São Vicente.
Conhecer a Belavista. Conhecer a casa de Vozinha, meninos que cresceram como Vozinha numa terra onde um dia o poeta disse” as cabras nos ensinaram a comer pedras para não perecermos” Encontrar um país que não morreu quando muitos achavam que Cabo Verde ” nao tinha nem condições nem para ser dependente fará independente”
E encontrar finalmente o homem que durante tantas noites conheceu apenas através daquele pequeno boneco.
Talvez Vozinha descubra então algo que nenhum troféu consegue explicar.
Que enquanto defendia uma baliza, alguém do outro lado do Atlântico estava a aprender a sonhar com ele.
E nesse dia talvez seja difícil saber quem estará mais emocionado.
O menino que finalmente abraça o seu ídolo.
Ou o homem simples da Belavista que descobrirá que, sem perceber como, se tornou herói no quarto de uma criança brasileira. E talvez nos explicar por que a vida escolheu dois mindelenses humildes ele e a Cesária Évora para serem os maiores símbolos de Cabo Verde
**Há defesas que salvam golos.**
E há homens que, sem saber, ajudam a guardar sonhos.
Nicollas dorme abraçado ao seu Vozinha.
Cabo Verde talvez ainda esteja a acordar para perceber o tamanho do que conquistou.