Francisco Carvalho promete um novo Estado. Agora começa a parte mais difícil: cumprir

17/07/2026 22:19 - Modificado em 17/07/2026 22:19
@ Facebook Governo de Cabo Verde

Primeiro-Ministro apresenta um Programa de Governo ambicioso, promete combater a corrupção, reformar a Justiça, regionalizar o país e baixar o preço dos transportes. O Parlamento ouvirá agora as promessas. O país começará, a partir de amanhã, a medir os resultados.

Há um momento em que as campanhas terminam.

E começa a governação.

Foi esse momento que Francisco Carvalho procurou assinalar ao apresentar, no Parlamento, o Programa do Governo da XI Legislatura.

Depois de semanas em que o debate político foi dominado pela acusação deduzida pelo Ministério Público, o Primeiro-Ministro tentou recentrar a agenda naquilo que considera ser a verdadeira prioridade: governar.

E fê-lo recuperando o slogan que lhe valeu a vitória eleitoral.

**”Cabo Verde para Todos.”**

Uma expressão simples.

Mas que agora deixa de ser promessa eleitoral para passar a ser compromisso político.

## **Um programa que promete mexer no Estado**

O documento apresentado pelo Governo é ambicioso.

Fala de um Estado mais pequeno, mais eficiente e mais digital.

Promete reduzir custos de funcionamento, eliminar sobreposições entre serviços públicos, aproximar a Administração dos cidadãos e lançar um debate nacional sobre a regionalização.

Há também compromissos claros na Justiça.

Francisco Carvalho promete acelerar processos, reforçar a independência das instituições, fortalecer o Ministério Público, a Polícia Judiciária e o sistema prisional.

A ironia política é inevitável.

É precisamente um Governo liderado por um Primeiro-Ministro acusado pelo Ministério Público que hoje promete reforçar as instituições responsáveis pelo combate à corrupção e pela investigação criminal.

A democracia tem destas imagens.

# **Combater a corrupção… governando**

O combate à corrupção ocupa um lugar central no Programa do Governo.

Mais transparência. Mais fiscalização.

Mais rigor na gestão pública.

São objectivos difíceis de contestar.

Mas que carregam um peso acrescido no actual contexto político.

Porque cada palavra pronunciada sobre transparência será inevitavelmente comparada com o processo judicial que hoje envolve o chefe do Executivo.

Não será o discurso que responderá a essa contradição. Serão os factos.

 **Os velhos problemas continuam no centro**

Apesar das reformas institucionais, o coração do Programa continua a bater ao ritmo dos problemas que os cabo-verdianos sentem todos os dias.

Transportes. Saúde. Habitação. Educação.

Emprego.

Francisco Carvalho voltou a assumir um dos compromissos que mais marcaram a campanha eleitoral: **fixar o preço das passagens marítimas inter-ilhas em 500 escudos**.

É uma promessa que ajudou o PAICV a conquistar muitos votos.

E será também uma das primeiras grandes provas de fogo do Governo.

Porque prometer custa pouco.

Encontrar os recursos para cumprir será bastante mais difícil.

## **Regionalização regressa ao centro do debate**

Outro tema que regressa é a regionalização.

O Governo não anunciou um modelo fechado.

Prometeu antes abrir um amplo debate nacional.

É uma escolha politicamente inteligente.

A regionalização é uma das reformas mais antigas da democracia cabo-verdiana.

Sempre anunciada.

Nunca concretizada.

Talvez porque poucos temas consigam unir tantas boas intenções e tantas divergências ao mesmo tempo.

## **O momento em que acabam as desculpas**

Existe, contudo, uma diferença fundamental entre este Governo e todos os anteriores.

Durante anos, Francisco Carvalho foi uma das vozes mais críticas da governação nacional.

Agora é ele quem governa.

A partir deste momento, a oposição deixa de ser um lugar.

Passa a ser uma memória.

O país já conhece o diagnóstico.

Conhece as críticas.

Conhece os problemas.

O que espera agora são soluções.

**O parágrafo que a política nunca gosta de ouvir**

Todos os programas de Governo são optimistas.

Todos prometem modernizar o Estado.

Reformar a Justiça.

Combater a corrupção.

Criar emprego.

Melhorar os transportes.

Reduzir desigualdades.

A diferença nunca esteve nas palavras.

Sempre esteve na capacidade de as transformar em políticas públicas.

É aí que os governos começam verdadeiramente.

## **Que Francisco governe**

O *Notícias do Norte* já escreveu, após as eleições, que nenhum Governo é bom ou mau antes de governar.

Mantemos exactamente a mesma posição.

As críticas da oposição fazem parte da democracia.

O escrutínio da comunicação social também.

Mas a avaliação definitiva não será feita pelos discursos de hoje.

Nem pelas conferências de imprensa.

Nem pelas acusações.

Será feita pela capacidade deste Governo de melhorar a vida dos cabo-verdianos.

Foi essa a vontade expressa nas urnas.

Agora chegou o tempo de governar.

E, numa democracia, é sempre aí que começa o verdadeiro julgamento.

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