Espanha e Uruguai anunciaram o gigante. A Argentina é o gigante.

Contra a Espanha, Cabo Verde enfrentou o avatar da posse de bola. Contra o Uruguai, encontrou o avatar da intensidade física. Ambos eram gigantes à sua maneira.
Ambos caíram na teia tática montada por Bubista. Agora já não há avatares. Agora chega a Argentina.
Se a Espanha representava um pedaço de Golias e o Uruguai outro, a Argentina é Golias completo: tem a posse espanhola, a agressividade uruguaia, a qualidade técnica brasileira, a maturidade das grandes campeãs e, sobretudo, uma capacidade rara de decidir um jogo em segundos.
É por isso que este não é apenas mais um jogo.
É o momento em que David deixa de enfrentar as sombras do gigante para ficar frente a frente com o próprio gigante.
Por : Eduino Santos
Há uma tendência curiosa no futebol.Quando uma pequena seleção elimina o medo, o mundo volta rapidamente a lembrar-lhe a dimensão do próximo adversário.
Foi assim depois da Espanha.Foi assim depois do Uruguai.E volta a acontecer agora.
“Agora é a Argentina.”
Como se esse nome bastasse para fechar a discussão antes do apito inicial.
Mas talvez a pergunta não seja essa.A pergunta é outra.
Que Argentina vai encontrar Bubista?
Porque Bubista já não é o treinador da seleção que chegou aos Estados Unidos para aprender.É o treinador da equipa que obrigou a Espanha a empatar sem golos, que resistiu ao Uruguai e que conquistou uma inédita qualificação para a fase a eliminar.
A pequena seleção já cresceu.Não em tamanho.Em personalidade.
Os avatares de Golias… e agora o próprio Golias
Escrevemos, antes do jogo com a Espanha, que David nunca derrotou Golias por ser mais forte.Derrotou-o porque recusou jogar o jogo de Golias.Enquanto todos olhavam para a força do gigante, David procurava o seu ponto fraco.
Foi isso que Bubista fez.Contra a Espanha recusou disputar a posse de bola.Contra o Uruguai recusou entrar na guerra física.Contra a Arábia Saudita recusou cair na ansiedade.Em cada jogo escolheu um terreno diferente. Isso se chama controlo emocional.
Agora, porém, o desafio é outro.Porque já não chega um avatar de Golias : chega o próprio Golias.
A campeã do mundo.A seleção que reúne talento, experiência, inteligência e confiança.
. Que tem Messi que não é Yamal.Uma equipa que parece não ter pontos fracos
Mas a História ensina precisamente o contrário.
Os gigantes também caem
Aníbal atravessou os Alpes quando Roma julgava impossível.
Alexandre Magno venceu exércitos muito maiores porque nunca combateu onde o inimigo queria.Napoleão revolucionou a guerra pela mobilidade.
David venceu Golias porque percebeu que força não se combate com força.
No futebol acontece exatamente a mesma coisa.Nenhuma equipa derrota um gigante tentando ser maior do que ele.Derrota-o obrigando-o a jogar um jogo diferente daquele que domina.Foi isso que Bubista construiu neste Mundial.
Uma equipa que não tenta ser Espanha.Não tenta ser Uruguai.Não tentará ser Argentina.Continua simplesmente a ser Cabo Verde.
A Argentina joga quase sem erros
Ao contrário da Espanha, que vive da posse, ou do Uruguai, que vive da intensidade, a Argentina vive da inteligência.É talvez a equipa mais completa do torneio.
Pode dominar.Pode esperar.Pode contra-atacar.Pode defender.Pode sofrer.
E sabe quando acelerar.Essa maturidade faz dela uma das seleções mais difíceis de desmontar.Não oferece muitos espaços.Não perde facilmente a organização.
E castiga quase sempre o primeiro erro do adversário.É uma equipa que joga como os campeões jogam.Com paciência.Sem ansiedade.Sem pressa. E tem … Messi just in case
A nova funda de Bubista
É precisamente aqui que começa o verdadeiro trabalho do selecionador cabo-verdiano.
Até agora a funda foi diferente em cada jogo.Contra a Espanha foi a paciência.
Contra o Uruguai foi o controlo emocional.Contra a Arábia Saudita foi a maturidade para suportar o peso do favoritismo.Agora talvez seja outra.
A imperfeição.
Porque nenhuma equipa joga noventa minutos perfeitos.
Nem mesmo a Argentina.A missão de Bubista será obrigar os argentinos a cometerem um ou dois erros.Apenas um ou dois.No futebol moderno isso pode bastar.
Uma recuperação.Uma transição.Uma bola parada.Um ressalto.Uma decisão errada.
É nesses segundos que os Mundiais mudam de rumo.
O maior elogio que se pode fazer a Cabo Verde
Antes do Mundial perguntava-se quantos golos sofreria Cabo Verde contra as grandes seleções.Hoje a pergunta mudou :.
Como conseguirá a Argentina desmontar Cabo Verde?
Parece uma pequena diferença.Mas é enorme.Significa que o respeito foi conquistado.
Hoje ninguém encara Cabo Verde como uma curiosidade africana.
Encaram-no como uma equipa organizada, disciplinada e extremamente difícil de derrotar.Esse talvez seja o maior triunfo de Bubista .Antes mesmo de voltar a entrar em campo.